AZULEJO, TALHA E PINTURA MURAL: DIÁLOGOS


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 de Novembro de 2016 | 18h00 | Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa | sala 5.2

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Resumo

A pintura mural, sendo executada sobre um revestimento arquitectónico, tem, em primeiro lugar, uma função de protecção. No entanto, de um modo geral, associada a essa função está também presente uma preocupação estética e decorativa e, tirando partido das possibilidades técnicas que um revestimento de cal oferece, é imensa a variedade de opções, que vão desde a utilização de elementos de várias gramáticas decorativas, sejam elas românicas, renascentistas, barrocas, etc., passando pela imitação de outros materiais e equipamentos, seja por questões de economia de custos ou por questões de gosto e moda, como aconteceu em determinados períodos, nomeadamente no séc. XIX durante o Romantismo.

Podemos, pois, estabelecer um paralelismo entre este tipo de revestimentos e os revestimentos azulejares, não só porque têm o mesmo suporte, um elemento arquitectónico, mas também porque a linguagem decorativa de ambos utiliza o mesmo tipo de soluções e ainda pela sua capacidade de mimetismo e de se “fingirem” mutuamente e a outros materiais, sendo comum encontrar os mesmos motivos decorativos nos dois tipos de revestimento.

Não podemos provar que a pintura mural tenha influenciado directamente os revestimentos azulejares, pois aquela utiliza, em termos de novos programas decorativos, os elementos formais da expressão arquitectónica, como no caso do padrão designado ponta de diamante que tem como óbvia referência os revestimentos da arquitectura renascentista e, por isso, a fonte pode ser a mesma e não a pintura mural. Contudo, parece-nos claro que acontece o contrário, isto é, que os revestimentos azulejares poderão ter servido de inspiração à pintura mural. É o caso dos revestimentos azulejares mudéjar que são replicados na decoração mural na transição do séc. XV para o seguinte e que devem corresponder a um gosto, ou moda, no seio da classe dominante, pois aparece em locais emblemáticos do poder civil e religioso da altura, como no Convento de Cristo em Tomar, no Palácio da Vila em Sintra, na Capela de Nossa Senhora da Glória da Sé de Braga e ainda num arcossólio correspondente à sepultura de um nobre na Igreja da Graça de Santarém.

A partir de finais do séc. XVII a pintura mural perde o protagonismo decorativo para os revestimentos azulejares, passando das paredes para os tectos e abóbadas, fazendo parte, conjuntamente com os azulejos e com a talha, de um programa de obra total, com uma gramática decorativa comum, tão característico do período barroco.

A abordagem deste tema sob o ponto de vista da pintura mural, far-se-á sob cinco pontos de vista:

1. Mostram-se alguns exemplos de utilização dos mesmo padrões em que, na pintura mural aparecem exclusivamente na decoração de lambrins e nos revestimentos azulejares em fachadas de edifícios. Não nos parece que haja uma influência dos azulejos sobre a pintura mural, eventualmente o contrário poderá ter acontecido, uma vez que estamos a falar de pinturas do séc. XVI enquanto que os revestimentos azulejares são já do séc. XX.

2. Utilização, na pintura mural do século XVI, de padrões da gramática decorativa mudéjar que, nesta época, corresponderá a um gosto das classes ligadas ao poder, secular ou religioso. Cremos que neste caso é nítida a influência  dos revestimentos azulejares  na pintura mural.

3. Alguns exemplos da semelhança de motivos decorativos de estampilha entre pintura mural e azulejo.

4. Imitação de revestimentos de azulejos com intenção ilusionista.

5. Complementaridade decorativa entre revestimentos azulejares e pintura mural a partir de finais do séc. XVII.

Joaquim Inácio Caetano ARTIS-IHA / FLUL |
Bolseiro FCT: SFRH/BDP/98000/2013

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AZULEJO, GILDED WOODCARVING AND MURAL PAINTING: DIALOGUES


November 9th,
 2016 | 18h00 | Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa | room 5.2

Abstract

Executed over an architectural covering, mural painting has, first, a protective function. Nevertheless, and in general way, associated with this function is also present an aesthetic and decorative concern and, taking advantage of the technical possibilities that a lime coating offers, its huge the variety of options ranging from the use of elements of various decorative grammars, whether Romanesque, Renaissance, Baroque, etc., going through the imitation of other materials and equipment, either due to cost savings or matters of taste and fashion, as it happened in certain decorative periods such as the 19th century during the Romanticism.

We can therefore draw a parallel between this type of coverings and the azulejo coverings, not only because they have the same support, an architectural element, but also because both decorative languages uses the same type of solutions and also by its mimicry skills and the ” feigning” of each other and to other materials, being common to find the same motifs in both types of covering.

We cannot prove that mural painting has directly influenced the azulejo coverings, because the first uses, in terms of new decorative programs, the formal elements of the architectural expression, as is the case of the pattern known as diamond point motif whose obvious reference are the coverings of Renaissance architecture, and therefore, the source may be the same and not the mural painting. However, it seems clear that the opposite happens, i.e., the azulejo coverings may have served as inspiration for mural painting. This is the case of the mudejar azulejo coverings that are replicated in mural decorations in the transition of the 15th century to the 16th century, and which must correspond to a taste or fashion, within the ruling class, for it appears in emblematic places of civil and religious power of the time, as in the Convent of Cristo in Tomar, in the Palace da Vila in Sintra, in the Chapel of Nossa Senhora da Glória da Sé of Braga and in an arcosolium corresponding to the tomb of a nobleman in the Church of Graça of Santarém.

From the end of the 17th century mural painting loses its decorative role for the azulejo coverings, moving from the walls to the ceilings and vaults, being part, together with the azulejos and the gilded woodcarving, of a total work of art, with a common decorative grammar, so characteristic of the Baroque period.

The approach to this subject from the point of view of the mural painting, shall be made under five points of view:

1. Some examples will be displayed on the use of the same patterns that, in the mural painting, appear exclusively on the wainscot decoration and on the azulejo coverings, in the building façades. We do not think that there is an influence of the azulejo on the mural painting, possibly the opposite might have happened, since we are talking about paintings of the 16th century while the azulejo coverings are already of the 20th century.

2. In the mural painting of the 16th century, the use of patterns of mudejar decorative grammar that at this time, will correspond to a taste of classes linked to secular or religious power. We believe that in this case is the clear influence of the azulejo coverings in the mural painting.

3. Some examples of the similarity of stencil decorative motifs between mural painting and azulejo.

4. Imitation of azulejo coverings with illusionist intention.

5. Decorative complementarity between azulejo coverings and mural painting from the end of the 17th century.


Joaquim Inácio Caetano
ARTIS-IHA / FLUL |
Bolseiro FCT: SFRH/BDP/98000/2013

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