AZULEJO, TALHA E PINTURA MURAL: DIÁLOGOS


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Resumo
O AzLab#26, intitulado azulejo, talha e pintura mural: diálogos, teve como convidados Sílvia Ferreira e Joaquim Inácio Caetano, e contou com a moderação de Rosário Salema de Carvalho.

Sílvia Ferreira começou por explicar de que forma surgiu a azulejaria no contexto da sua investigação, lembrando as primeiras aproximações a este tema, que remontam a 2010, no contexto da Rede de Investigação em Azulejo (à época designada Rede temática em Estudos de Azulejaria e Cerâmica João Miguel dos Santos Simões). A este primeiro ensaio sucederam-se outros, que privilegiaram o estudo dos diálogos entre a talha e o azulejo, mas também com os embutidos marmóreos, e de que a participação no AzLab#26 é exemplo, materializando-se numa análise comparativa que evidencia mimetismos e apropriações mútuas.

Abordando depois a matéria da sua intervenção, que dividiu em vários tópicos, chamou a atenção para os estudos pioneiros de Santos Simões, Robert Smith e José Meco  que identificaram a relação profícua e simbiótica entre azulejo barroco e talha dourada. Relembrou a importância das gravuras no traço destas artes integradas, evidenciando a importância transversal daquelas e a sua aplicabilidade nas duas artes em análise, conduzindo a audiência numa viagem ao mimetismo das formas através de vários motivos ornamentais: mascarões, cariátides, cabeças emplumadas e putti-atlantes. Mostrou, de seguida, exemplos de mimetizações mútuas entre azulejo e talha, muito comuns no período barroco, e que conheceram novas variantes no rococó e neoclássico, ilustrando e destacando a aproximação entre as artes a partir do rococó, através das apropriações pelo azulejo dos elementos e cores da talha, quer em enquadramentos integrais, quer através de pequenos apontamentos.

Sílvia Ferreira terminou a sua intervenção salientando que os programas iconográficos e ornamentais promoveram, em estreita relação com a arquitectura, diálogos de articulação entre as artes, conferindo coerência e coesão ao todo, ou seja, fornecendo um fio condutor na leitura global, como uma fusão harmónica entre os elementos.

Seguindo uma perspectiva semelhante, Joaquim Inácio Caetano propôs-se apresentar exemplos de diálogos entre o azulejo e a pintura mural, sublinhando a importância dos olhares cruzados sobre estas matérias.

Tentando construir um repertório de formas partilhadas pela pintura mural e azulejo alertou que ambas as artes se apropriam de elementos de um vocabulário decorativo transversal a diferentes épocas e culturas, como os cubos perspectivados ou elementos de filiação mudéjar. Procurou, de seguida, estabelecer diversos níveis de relação, mostrando que nem sempre o azulejo e a pintura mural se mimetizam, mas apenas reproduzem o mesmo elemento decorativo; expondo casos de relação directa entre azulejo e pintura mural; e revelando exemplos de equivalência, quando ambas as manifestações artísticas imitam marmoreados e pontas de diamantes de expressivos jogos ilusórios. Este investigador destacou ainda o recurso à pintura mural em substituição do azulejo, muitas vezes reproduzindo-o em engenhosas soluções que preenchiam áreas com lacunas de azulejo, discutindo-se a prevalência e a alternância de gostos ao longo dos tempos, que ora desvalorizou, ora recuperou (mais recentemente) o gosto pela pintura mural.

Joaquim Inácio Caetano mostrou, depois, um conjunto de exemplos de pintura mural sobre a qual se assentaram azulejos, assim como casos de pintura mural descoberta e resgatada atrás de retábulos de talha, chamando a atenção para as intervenções sobre o património e as questões éticas que lhe são inerentes.

Iniciando o debate, Rosário Salema de Carvalho aproveitou para dar um exemplo inverso à ideia anteriormente discutida, referindo a existência, na igreja do Hospital de Santa Marta, em Lisboa, de azulejos de padrão sobre os quais foi realizada uma pintura representando Santo António. Em seguida discutiu-se a importância destes olhares cruzados e da relevância dos conteúdos apresentados na sessão. Uma intervenção do público sublinhou a complementaridade em detrimento da sobreposição das artes decorativas em causa, compreendendo que a planificação de um programa iconográfico dispunha ou articulava pintura mural, azulejo e talha em função do resultado final pretendido. Com efeito, esta sessão devolveu-nos a todos a impressão de que o estudo das artes decorativas e o seu progresso dependem de uma visão articulada entre todas as artes em presença.

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AZULEJO, GILDED WOODCARVING AND MURAL PAINTING: DIALOGUES


Session Overview
The AzLab#26, entitled azulejo, gilded woodcarving and mural painting: dialogues, had as guests Sílvia Ferreira and Joaquim Inácio Caetano, and was moderated by Rosário Salema de Carvalho.

Sílvia Ferreira began by explaining the context of how the azulejos came up in her research, remembering the first approaches to this theme which date back to 2010, in the context of the Rede de Investigação em Azulejo (designated at the time Rede temática em Estudos de Azulejaria e Cerâmica João Miguel dos Santos Simões). This first essay was followed by others, which favored the study of dialogues between the gilded woodcarving and the azulejo, but also with the marble inlays, and that the participation in the AzLab#26 is an example, materializing in a comparative analysis that evidences mutual mimicking and appropriations.

Addressing later the subject of her intervention, which she divided into several topics, Sílvia Ferreira drew attention to the pioneering studies of Santos Simões, Robert Smith and José Meco who identified the fruitful and symbiotic relationship between the baroque azulejo and the gilded woodcarving. She recalled the importance of the engravings in the traits of these integrated arts, evidencing the transversal importance of these and their applicability in the two arts under analysis, leading the audience on a journey to the mimicry of forms through various ornamental motifs: mascarons, caryatids and putti-atlantes. Next, she showed examples of mutual mimicking between the azulejo and the gilded woodcarving, very common in the baroque period, that later knew new variants in the rococo and the neoclassical periods, illustrating and highlighting the rapprochement between the arts from the rococo through the appropriations – by the azulejo – of the elements and colors of the gilded woodcarving, either in full frames or through small notes.

Sílvia Ferreira concluded by emphasizing that the iconographic and ornamental programs promoted, in close relation with the architecture, dialogues of articulation between the arts, conferring coherence and cohesion on the whole, i.e., providing a guiding thread in the overall reading, as a harmonic fusion between the elements.

Following a similar perspective, Joaquim Inácio Caetano presented examples of dialogues between the azulejo and mural painting, stressing the importance of information exchange on these matters.

Trying to construct a repertoire of forms shared by mural painting and the azulejo, he pointed out that both arts appropriated elements of a decorative vocabulary transversal to different times and cultures, such as the perspective cubes or elements of mudejar affiliation. Joaquim Inácio Caetano also tried to establish different levels of relationship, showing that the azulejo and mural painting do not always mimic each other, but only reproduce the same decorative element, exposing cases of direct relationship between the azulejo and mural painting and revealing examples of equivalence, when both artistic manifestations imitate marble inlays and diamond point motifs of expressive illusory games. The researcher also highlighted the use of mural painting in substitution of the azulejo, often reproducing it in ingenious solutions that fill areas with azulejo gaps, discussing the prevalence and the alternation of tastes over time that, at first, devalued it, or (more recently) regained the taste for mural painting.

Joaquim Inácio Caetano then showed a set of examples of mural painting on which azulejos were settled, as well as cases of mural painting discovered and rescued behind gilded woodcarving altarpieces, drawing attention to the interventions on heritage and the ethical issues that are inherent.

Beginning the debate, Rosario Salema de Carvalho took the opportunity to give an inverse example to the idea previously discussed, referring the existence, in the church of the Hospital of Santa Marta in Lisbon, of pattern azulejos on which a painting was held representing Saint Anthony. Then, it was discussed the importance of these information exchange and the relevance of the contents presented in the session. This was followed by an intervention from the audience, which highlighted the complementarity in detriment of the overlapping within the decorative arts, understanding that the planning of an iconographic program could articulate mural painting, azulejo and gilded woodcarving, in order to achieve the intended final result. Indeed, this session gives us all the impression that the study of the decorative arts and its progress depends on an articulated vision of all the arts that are present.

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