DO CASULO À RESIDÊNCIA ARTÍSTICA: ARTISTAS NA FÁBRICA VIÚVA LAMEGO

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Resumo
Durante uma hora, as intervenções de Ana Almeida e Maria Ana Vasco Costa abriram as múltiplas portas da Viúva Lamego (VL), conduzindo o público do AzLab#38 através dos “casulos” situados ainda nas instalações da Palma de Baixo, em Lisboa (a segunda casa da VL depois do Largo do Intendente) e dos ateliers na Abrunheira, em Sintra, onde a fábrica se encontra desde o início da década de 1990.

Ana Almeida começou por contextualizar a parceria que, desde a década de 1930, se estabeleceu entre a VL e vários artistas que aí trabalharam e tiveram os seus “casulos”, isto é, que mantiveram um espaço de trabalho próprio na fábrica. Foram referidos os artistas Jorge Barradas, Manuel Cargaleiro que trabalhou como seu assistente, Cecília de Sousa que “herdou” o casulo de Manuel Cargaleiro aquando da sua partida para Paris, Querubim Lapa e Maria Emília Araújo, que hoje ocupa o atelier deste último. Mais tarde, no debate, voltar-se-ia a esta questão da disponibilidade da VL para receber artistas e do carácter inovador desta proposta, destacando o papel desempenhado por alguns dos seus administradores, em particular o pintor Eduardo Leite e o Eng.º Álvaro Garcia.

Numa primeira fase, Maria Ana Vasco Costa falou sobre o seu trabalho, referindo-se com enorme entusiasmo à descoberta das potencialidades da cerâmica, primeiro no Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual (onde estudou e hoje é responsável pelo Departamento de Cerâmica) e depois nas olarias com que trabalhou, até ter sido convidada como artista-residente na Viúva Lamego (2017). Mostrando azulejos e cerâmica tridimensional, Maria Ana foi contando as dificuldades com que se debateu, quer ao nível do manuseamento das peças, quer ao nível das dimensões dos fornos, por exemplo, chamando sempre a atenção para a complexidade inerente à produção cerâmica e à importância das formas e da cor no seu trabalho.

O habitual período de debate foi, desta vez, substituído por alguns testemunhos emocionados da assistência sobre as suas experiências de trabalho e vivências na Viúva Lamego, e por algumas perguntas a Maria Ana Vasco Costa, entre as quais destacamos as que incidiram sobre os seus processos criativos e a relação que hoje é possível estabelecer entre os artistas-residentes na fábrica.

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FROM THE COCOON TO THE ARTISTIC RESIDENCE: ARTISTS IN THE FACTORY VIÚVA LAMEGO


Session overview
For an hour, the interventions of Ana Almeida and Maria Ana Vasco Costa opened the multiple doors of Viúva Lamego (VL), leading the audience of AzLab#38 through the “cocoons” still located in Palma de Baixo, Lisbon (the second house of VL after Largo do Intendente) and the ateliers in Abrunheira, Sintra, where the factory has been since the beginning of the 1990s.

Ana Almeida began by contextualizing the collaboration that, since the 1930s, was established between the VL and several artists who worked there and had their “cocoons”, that is, who maintained a work space of their own in the factory. She mentioned the artists Jorge Barradas, Manuel Cargaleiro, who worked as his assistant, Cecília de Sousa, who “inherited” the cocoon of Manuel Cargaleiro on his departure to Paris, Querubim Lapa and Maria Emília Araújo, who today occupies the atelier of the latter. Later, in the debate, we returned to this question of the willingness of VL to receive artists and the innovative character of this proposal, highlighting the role played by some of its administrators, in particular the painter Eduardo Leite and Engº Álvaro Garcia.

Maria Ana Vasco Costa spoke about her work, referring with great enthusiasm to the discovery of the ceramic potentials, first in the Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual (where she studied and is now in charge of the Ceramics Department) and then in the potteries with which she worked, until she was invited as an artist-resident at Viúva Lamego (2017). Showing azulejos (tiles) and three-dimensional ceramics, Maria Ana described the difficulties she faced in terms of both the handling of parts and the size of the furnaces, always drawing attention to the inherent complexity of ceramic production and the importance shapes and colour have in her work.

The usual period of debate was replaced by a few emotional testimonies of the audience about their work and life experiences at Viúva Lamego, and by some questions to Maria Ana Vasco Costa, among which we highlight the ones that focused on her creative processes and the relationship that can be established today among artists-residents in the factory.

DO CASULO À RESIDÊNCIA ARTÍSTICA: ARTISTAS NA FÁBRICA VIÚVA LAMEGO

14 ​de​ Março ​​de​ ​2018​ ​|​ ​18h00​ ​|​ ​Faculdade​ ​de​ ​Letras​ ​da​ ​Universidade​ ​de​ ​Lisboa​ ​|​ ​sala​ ​5.2

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Entrevista Manuel Cargaleiro
Para preparar este AzLab fomos à Viúva Lamego falar com o Mestre Manuel Cargaleiro. Aqui ficam alguns excertos da entrevista conduzida pela Patrícia Nóbrega e pela Inês Leitão. Obrigada Mestre por este privilégio!

Manuel Cargaleiro (MC)
Aos 91 anos tenho imensos projectos para fazer ainda!
(…)
E o Luís Reis Santos levou-me à Brasileira do Chiado, apresentou-me ao Jorge Barradas, eu fui trabalhar para o atelier do Jorge Barradas, aprendi tudo com ele!
(…)
Fui para a Viúva Lamego, o atelier dele era grande, e ele tinha dois terços e eu tinha um terço.

Em 1949. Eu aí comecei a aprender tudo, que eu não sabia nada. Aí foi a minha escola da cerâmica, com o Jorge Barradas. O Jorge Barradas que sabia tudo!
(…)
Depois disto, no princípio dos anos 50, depois do Picasso e do Miró (…) e aí foi o Leite e o Eng.º Garcia, esses tiveram muita influência. Tiveram, sabe porquê? Porque eles facilitaram e abriram as portas…
(…)
Sabe que eu gostava tanto, tanto, tanto, de ver o Rogério Ribeiro ali ao lado a trabalhar. Era um prazer vê-lo.
(…)

Patrícia Nóbrega (PN)
Por isso é que refere, como li numa entrevista, a importância de estar sempre a trabalhar, porque a inspiração pode chegar em qualquer altura e assim está preparado.

MC
Exactamente. Se eu não estou a trabalhar na altura em que passa a inspiração, não a apanhei.
(…)
Agora é a vez do azulejo. O azulejo na arquitectura. Isto para mim é o segredo da continuidade.
(…)
Quando estou a pintar cerâmica, azulejo, estou a pensar em pintura, e quando estou a pintar a pintura estou a pensar nos azulejos, quer dizer, há uma interferência de uma coisa da outra, que está ligado.
(…)
E agora já começa a haver trabalhos… ainda há bocadinho o [Gonçalo] mostrou-me umas coisas lindíssimas de uma rapariga que ganhou agora um prémio…

Inês leitão (IL)
Da Maria Ana Vasco Costa

MC
Muito bonitos esses azulejos!

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FROM THE COCOON TO THE ARTISTIC RESIDENCE: ARTISTS IN THE FACTORY VIÚVA LAMEGO


March 14th,
2018 | 18h00 | Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa | room 5.2

Interview with Manuel Cargaleiro
To prepare this AzLab we went to Viúva Lamego to speak with Master Manuel Cargaleiro. Here are some excerpts from the interview conducted by Patricia Nóbrega and Inês Leitão. Thank you Master for this privilege!

Manuel Cargaleiro (MC)
At 91 years of age, I have lots of projects yet to do!
(…)
And Luís Reis Santos took me to Brasileira, in Chiado, and introduced me to Jorge Barradas, I went to work for Jorge Barradas’ atelier, I learned everything from him!
(…)
I went to Lamego, his atelier was big, and he had two-thirds and I had a third.

In 1949. I started there to learn everything, because I knew nothing. That was my pottery school, with Jorge Barradas. Jorge Barradas who knew everything!
(…)
After this, in the early 1950’s, after Picasso and Miró (…) and then there was Leite and Eng.º Garcia, who had a lot of influence. They did, do you know why? Because they facilitated and opened the doors…
(…)
You know that I liked it so much, so much, so much, to see Rogério Ribeiro right there working. It was a pleasure to see him.
(…)

Patrícia Nóbrega (PN)
That is why you mention, as I read in an interview, the importance of always be working, because inspiration can come at anytime and, this way, you are always prepared.

MC
Exactly. If I’m not working at the same time that inspiration passes by, then I didn’t catch it.
(…)
Now it is time of the azulejo (tile). The azulejo in architecture. This, for me, is the secret of continuity.
(…)
When I’m painting ceramic, azulejo, I’m thinking about painting, and when I’m painting the painting I’m thinking about azulejos, which means, there is an interference of one thing from the other, which is connected.
(…)
And now it is starting to show up some new works… a while ago [Gonçalo] showed me some beautiful things made by a girl who has now won a prize …

Inês leitão (IL)
Of Maria Ana Vasco Costa

MC
Very beautiful those azulejos!

DO CASULO À RESIDÊNCIA ARTÍSTICA: ARTISTAS NA FÁBRICA VIÚVA LAMEGO

14 ​de​ Março ​​de​ ​2018​ ​|​ ​18h00​ ​|​ ​Faculdade​ ​de​ ​Letras​ ​da​ ​Universidade​ ​de​ ​Lisboa​ ​|​ ​sala​ ​5.2

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Convidados:
Ana Almeida [Az – Rede de Investigação em Azulejo (ARTIS-IHA / FLUL)]
Maria Ana Vasco Costa [artista]

Moderador:
Inês Leitão [Az – Rede de Investigação em Azulejo (ARTIS-IHA / FLUL)]

Ana Almeida
Investigadora do grupo Az – Rede de Investigação em Azulejo [ARTIS-IHA/FLUL] desde Dezembro de 2008. Entre 2012 e 2016 foi bolseira de doutoramento na mesma instituição com o tema Cerâmica de autor para integração arquitectónica nas décadas de 1950 e 1960. A colecção do Museu Nacional do AzulejoÉ professora assistente convidada de Estudos de Museus e História da Arte na ESElx – Escola Superior de Educação de Lisboa, Instituto Politécnico de Lisboa. Mestre em Museologia e Museografia pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa com a tese intitulada Da Cidade ao Museu e do Museu à Cidade: Uma Proposta de Itinerário sobre Azulejaria de Autor na Lisboa da Segunda Metade do Século XX (Março de 2009). Licenciada em História, variante de História da Arte, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (1989-1993). Tem como áreas de maior interesse a produção cerâmica contemporânea, arte pública, urbanismo e arquitectura.

Maria Ana Vasco Costa
Vive e trabalha em Lisboa. Licenciada em Arquitectura desde 2004, instala-se em Londres onde exerce durante quatro anos. Em 2009 regressa a Lisboa e inicia o curso de cerâmica de autor no Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual. Em 2014 completa o Projecto Individual em Artes Plásticas no Ar.Co, e é convidada para ser responsável do Departamento de Cerâmica, função que ainda desempenha atualmente. Em Abril de 2017 aceita o convite para ser artista-residente na Fábrica Viúva Lamego. A cerâmica é o seu material de eleição nomeadamente pelas possibilidades plásticas que o corpo cerâmico acabado oferece, no que diz respeito a cor, profundidade, temperatura, variação e som. Em paralelo com o seu trabalho artístico, em 2014 executa os seus primeiros projectos utilizando azulejos tridimensionais de manufactura manual: o “The Wall Project MAVC” surge da necessidade de experimentar ideias de cor, textura e padrão conjugando formas geométricas tridimensionais simples, aplicados à escala arquitectónica, respeitando a tradição de azulejos monocromáticos portugueses. Tem intervenções premiadas nos Surface Design Awards, UK, em 2016, 2017 e em 2018. Participa regularmente em exposições coletivas, em Portugal e no estrangeiro, e o seu trabalho tem sido alvo de diversas publicações.

Mais informação | mavcstudio@gmail.com | #thewallprojectmavc  | www.mariaanavascocosta.com

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FROM THE COCOON TO THE ARTISTIC RESIDENCE: ARTISTS IN THE FACTORY VIÚVA LAMEGO


March 14th,
2018 | 18h00 | Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa | room 5.2

Invited speakers:
Ana Almeida [Az – Rede de Investigação em Azulejo (ARTIS-IHA / FLUL)]
Maria Ana Vasco Costa [artist]

Moderator:
Inês Leitão [Az – Rede de Investigação em Azulejo (ARTIS-IHA / FLUL)]

Ana Almeida
Researcher at Az – Azulejo Research Network (ARTIS-IHA) since December 2008 and, between  2012 and 2016 had a PHd grant (FCT) at the Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa dedicated to theme Authors Ceramics for Architectonical Integration. The collection of the Museu Nacional do Azulejo
Visiting Assistant Professor of Museum Studies and Art History at ESElx- Escola Superior de Educação de Lisboa, Instituto Politécnico de Lisboa. Master in Museum Studies, Faculty of Fine Arts, Lisbon University – Faculdade de Belas Artes de Lisboa, Universidade de Lisboa -, with a thesis entitled From the City to the Museum and from the Museum to the City. Itinerary propose on author tiles in Lisbon second half of the 20th century (March 2009). Holds a History, and a Art History Degree from the Faculty of Social Sciences and Humanities, New University of Lisbon – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa (1989-1993). Research interests include contemporary ceramic, public art, urbanism and architecture.

Maria Ana Vasco Costa
Lives and works in Lisbon, Portugal. She graduated in Architecture at the University of Lisbon in 2004, after which she went  to London where she practiced architecture the following 4 years (at the studios of David Adjaye, Terence Conran and Cláudio Silvestrin). In 2009 she returns to Lisbon and begins her studies in Ceramics at Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual which she completed in 2012. In 2014 she finished the Individual Project in Visual Arts at Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual, Lisbon and she is invited to be the Head of the Ceramics Department at Ar.Co, function she currently has . In April 2017 she accepts the invitation to be a resident artist at Factory Viúva Lamego. 
Ceramic is the material of her choice for the plastic possibilities that the finished ceramic body offers, with respect to colour, depth, temperature, variation and sound. Parallel to her studio practice, in 2014 she designs and manufactures her first projects using customized three-dimensional tiles: The Wall Project by MAVC comes from the need of experimenting ideas of colour, texture and pattern using simple geometrical shapes in the traditional form of Portuguese monochromatic tiles, when set in the architectural scale. Maria Ana Vasco Costa has received awards for her interventions, at the Surface Design Awards, UK, in 2016, 2017 and 2018. She participates on a regular basis in collective exhibitions, in Portugal and abroad, and her work has been subject of several publications.

More information | mavcstudio@gmail.com | #thewallprojectmavc  | www.mariaanavascocosta.com

DO CASULO À RESIDÊNCIA ARTÍSTICA: ARTISTAS NA FÁBRICA VIÚVA LAMEGO

14 ​de​ Março ​​de​ ​2018​ ​|​ ​18h00​ ​|​ ​Faculdade​ ​de​ ​Letras​ ​da​ ​Universidade​ ​de​ ​Lisboa​ ​|​ ​sala​ ​5.2

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Em meados do século XX, a Viúva Lamego disponibilizava aos ceramistas espaços de trabalho individuais na fábrica. Os artistas chamavam-lhes “casulos”! Jorge Barradas, Querubim Lapa, Cecília de Sousa e Manuel Cargaleiro foram alguns dos ceramistas que tiveram um “casulo”. Actualmente, a Viúva Lamego continua a criar condições para receber residências artísticas.

Este AzLab, que começa com uma abordagem histórica aos “casulos”, conduzida pela investigadora Ana Almeida, pretende contar a história dos artistas na fábrica, prolongando-se até aos dias de hoje na voz de Maria Ana Vasco Costa, que conta na primeira pessoa a sua experiência de trabalho na Viúva Lamego e como é ter uma residência artística na fábrica no início do século XXI.

Para preparar o AzLab#38 visitámos a Viúva Lamego nas suas actuais instalações, na Abrunheira, e conversámos com Manuel Cargaleiro. Não percam a publicação de alguns excertos desta interessante entrevista conduzida pela Patrícia Nóbrega e pela Inês Leitão, as nossas enviadas especiais!

Convidados:
Ana Almeida [Az – Rede de Investigação em Azulejo (ARTIS-IHA / FLUL)]
Maria Ana Vasco Costa [Artista]

Moderador:
Inês Leitão [Az – Rede de Investigação em Azulejo (ARTIS-IHA / FLUL)]

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Foto: Centro de Estudos Querubim Lapa e Maria Ana Vasco Costa

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FROM THE COCOON TO THE ARTISTIC RESIDENCE: ARTISTS IN THE FACTORY VIÚVA LAMEGO


March 14th,
2018 | 18h00 | Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa | room 5.2

In the middle of the 20th century, the Viúva Lamego provided ceramists with individual workspaces in the factory. The artists called them “cocoons”! Jorge Barradas, Querubim Lapa, Cecília de Sousa and Manuel Cargaleiro were some of the ceramists who had a “cocoon”. Currently, the Viúva Lamego continues to create conditions to receive artistic residencies.

This AzLab, which begins with a historical approach to the “cocoons”, conducted by the researcher Ana Almeida, intends to tell the history of the artists in the factory, continuing to this day in the voice of Maria Ana Vasco Costa, who tells in the first person her work experience at Viúva Lamego and how it is to have an artistic residence in the factory at the beginning of the 21st century.

To prepare the AzLab#38 we visited Viúva Lamego in its current installations, in Abrunheira, and we talked with Manuel Cargaleiro. Do not miss the publication of some excerpts from this interesting interview conducted by Patricia Nóbrega and Inês Leitão, our special emissaries!

Invited speakers:
Ana Almeida [Az – Rede de Investigação em Azulejo (ARTIS-IHA / FLUL)]
Maria Ana Vasco Costa [artist]

Moderator:
Inês Leitão [Az – Rede de Investigação em Azulejo (ARTIS-IHA / FLUL)]

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Photo: Centro de Estudos Querubim Lapa e Maria Ana Vasco Costa

“ERA PRECISO DECORAR O METRO”: MARIA KEIL E A RENOVAÇÃO DA AZULEJARIA EM PORTUGAL NOS ANOS DE 1950


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Resumo

A citação de Maria Keil – “era preciso decorar o Metro” – deu o mote à apresentação de Helena Alexandra Mantas, que começou por enfatizar o papel determinante da artista na reabilitação do azulejo nos meados do século XX. A relevância do seu trabalho contrasta vivamente com a forma modesta como a própria o entendia, sem todavia deixar de ter uma postura afirmativa no que diz respeito à defesa do azulejo enquanto suporte de características próprias, que deviam ser exploradas como tal.

Sem deixar de se referir à obra de Maria Keil nas suas diversas facetas, Helena Alexandra Mantas traçou uma breve biografia da artista, centrando depois a sua atenção na azulejaria e, em particular, nas obras da década de 1950, referindo-se ao painel O Mar, na Av. Infante Santo, e às primeiras estações do Metropolitano de Lisboa.

Ao longo do seu discurso, a questão da ligação do trabalho de Maria Keil à arquitectura, por via do seu marido e do ambiente cultural em que se moviam, foi bastante destacada. Mas sempre salientando a linguagem claramente contemporânea da artista, que se articula com uma arquitectura também contemporânea.

Descrevendo o processo de trabalho de Maria Keil, destacou-se o facto de jogar com diversas condicionantes, numa lógica ambivalente em que respeita a arquitectura e tira partido da mesma, trabalhando a partir do que a artista considerava ser a primeira condicionante do azulejo – um quadrado de 14×14 cm. Partindo da lógica do padrão, cria módulos de repetição (e não padrões) que combina de formas muito variadas sem se repetirem, desenhando ritmos e percursos susceptíveis de acentuar a leitura da arquitectura. Maria Keil joga com os contrastes de formas, de cor ou de proporção, que lhe permitem obter efeitos dinâmicos, pausas, ilusões ópticas, opacidades, transparências… Também investiga a história da azulejaria, que cita amiúde, a par das técnicas que experimenta na Viúva Lamego, uma espécie de laboratório em que sempre trabalhou.

A importância de Maria Keil nesta época mede-se, precisamente, pela nova linguagem que assumiu, abrindo um outro caminho para o azulejo, mas sem esquecer o passado, aplicando na azulejaria muito do que aprendeu em outras áreas, como as artes gráficas.

Terminada a apresentação, o público colocou várias perguntas à oradora, num debate animado, moderado por Ana Almeida. Dúvidas sobre se Maria Keil introduzia alterações ao projecto já em fase de obra, o que raramente acontecia; sobre o trabalho na Viúva Lamego; ou ainda sobre a questão da paleta cromática que usava, sempre muito contida mas variada de obra para obra, foram algumas das questões levantadas. Discutiu-se, ainda, a relação entre as mais recentes intervenções nas estações de Metro e o diálogo (ou não) que estabelecem com os revestimentos de Maria Keil. Por fim, Helena Alexandra Mantas recordou que a artista tinha um entendimento tão profundo das características do azulejo que afirmava que, por vezes, bastava uma parede revestida por azulejos brancos, pois se a luz fosse bem dirigida criava os ritmos e a ligação à arquitectura necessários. Na verdade, Maria Keil tinha uma perspectiva quase “extemporânea” do azulejo, pois estava mais alinhada com o entendimento actual do mesmo do que o que seria expectável nos anos de 1950.

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“THERE WAS A NEED TO DECORATE THE METRO”: MARIA KEIL AND THE RENEWAL OF THE PORTUGUESE TILE IN THE 1950’S


Session overview

Maria Keil’s quote – “there was a need to decorate the Metro” – set the tone for the presentation of Helena Alexandra Mantas, who started by emphasizing the decisive role of the artist in the rehabilitation of the azulejo (tile) in the middle of the 20th century. The relevance of her work contrasts sharply with the modest way as she understood it herself without, however, having an affirmative attitude regarding the defense of the tile as a support of its own characteristics, which should be explored as such.

While referring to the work of Maria Keil in its various aspects, Helena Alexandra Mantas drew a brief biography of the artist. Afterwards, she focused her attention on the tiles, and in particularly, in the works of the 1950’s, referring the panel O Mar, at Infante Santo Avenue, and the firsts stations of the Lisbon Underground.

Throughout her speech, the question of the connection of Maria Keil’s work to architecture, through her husband and the cultural environment in which they moved, was quite prominent. But always emphasizing the clearly contemporary language of the artist, which is articulated with a contemporary architecture.

Describing the process of Maria Keil’s work, it was highlighted the fact that she playing with several conditions, in an ambivalent logic in which she respects the architecture and takes advantage of it, working from what the artist considered to be the first conditioning of the tile – a square of 14×14 cm. Starting from the logic of the pattern, she creates repetition modules (not patterns) that she combines in many different ways without repeating them, drawing rhythms and paths that can accentuate the reading of the architecture. Maria Keil plays with the contrasts of shapes, colour or proportion, which allow her to obtain dynamic effects, pauses, optical illusions, opacities, transparencies … She also investigates the history of tiles, which she often quotes, along with the techniques she experiments in the Viúva Lamego Factory, a kind of laboratory where she has always worked.

The importance of Maria Keil at this time is measured, precisely, by the new language she has taken, opening up another path to the tile but not forgetting the past, applying in the tiles much of what she learned in other areas, such as the graphic arts.

After the presentation, the audience asked the speaker several questions in an animated debate moderated by Ana Almeida. Doubts as to whether Maria Keil introduced changes to the project already under construction, which rarely happened; on the work in the Viúva Lamego Factory; or on the question of the chromatic palette she used, always very contained but varied from work to work, were some of the issues raised. It was also discussed the relationship between the most recent interventions in the Underground stations and the dialogue (or not) that they establish with the coverings of Maria Keil. Finally, Helena Alexandra Mantas recalled that the artist had such a deep understanding of the characteristics of the tile that she affirmed that, sometimes, a wall covered by white tiles was enough, because if the light was well directed it created the necessary rhythms and connection to the architecture. In fact, Maria Keil had an almost “extemporaneous” perspective on tiles, so much more in line with the actual understanding of it than with what would be expected in the 1950s.

“ERA PRECISO DECORAR O METRO”: MARIA KEIL E A RENOVAÇÃO DA AZULEJARIA EM PORTUGAL NOS ANOS DE 1950

29​​ ​de​ Novembro ​​de​ ​2017​ ​|​ ​18h00​ ​|​ ​Faculdade​ ​de​ ​Letras​ ​da​ ​Universidade​ ​de​ ​Lisboa​ ​|​ ​sala​ ​5.2

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Sugestões de leitura

Catálogos de exposição:
Maria Keil – De Propósito, Obra Artística. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2014.
[Catálogo da exposição com o mesmo título, organizada em núcleos temáticos que revelam as diferentes facetas do seu percurso artístico: Azulejo; Pintura e Desenho; Cenografia e Figurinos; Design Gráfico e Publicidade; Ilustração; Mobiliário e Decoração; Tapeçaria Mural.

PEREIRA, João Castel-Branco – Maria Keil. Azulejo. Lisboa: Instituto Português do Património Cultural / Museu Nacional do Azulejo, 1989.
[Catálogo de exposição retrospectiva da obra para azulejo de Maria Keil (até 1989). Contém textos e entrevista à artista.]

Teses:
MANTAS, Helena Alexandra Jorge Soares – Maria Keil, uma operária das artes (1914-2012). Arte Portuguesa do século XX. Tese de Doutoramento em História da Arte. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2013. [disponível em https://estudogeral.sib.uc.pt/jspui/handle/10316/24453].
[Tese de doutoramento que aborda as diversas áreas artísticas a que Maria Keil se dedicou, e entre as quais se destacam as artes gráficas, a publicidade, a ilustração, a azulejaria, o desenho e a pintura.]

Outras monografias:
Maria Keil: metros do meu azulejo. Lisboa: Metropolitano de Lisboa, 1999.
[Publicação com imagens do interior das estações do Metropolitano de Lisboa com revestimentos da autoria de Maria Keil.]

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“THERE WAS A NEED TO DECORATE THE METRO”: MARIA KEIL AND THE RENEWAL OF THE PORTUGUESE TILE IN THE 1950’S


November 29th, 2017 | 18h00 | Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa | room 5.2

Reading suggestions

Exhibition catalogues:
Maria Keil – De Propósito, Obra Artística. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2014.
[Catalogue of the exhibition with the same title, organized in thematic nuclei that reveal the different facets of her artistic path: Azulejo (Tile); Painting and Drawing; Scenographies and Costumes; Graphic Design and Advertising; Illustration; Furniture and Decoration; Wall Tapestry.]

PEREIRA, João Castel-Branco – Maria Keil. Azulejo. Lisboa: Instituto Português do Património Cultural / Museu Nacional do Azulejo, 1989.
[Retrospective exhibition catalogue of Maria Keil’s azulejo (tile) work (until 1989). Contains texts and interviews with the artist.]

Thesis:
MANTAS, Helena Alexandra Jorge Soares – Maria Keil, uma operária das artes (1914-2012). Arte Portuguesa do século XX. Tese de Doutoramento em História da Arte. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2013. [available on: https://estudogeral.sib.uc.pt/jspui/handle/10316/24453].
[PhD thesis that approaches the various artistic areas to which Maria Keil dedicated herself, among which the graphic arts, advertising, illustration, azulejos (tiles), drawing and painting.]

Other monographs:
Maria Keil: metros do meu azulejo. Lisboa: Metropolitano de Lisboa, 1999.
[Publication with images of the interior of the Lisbon Underground stations with coverings by Maria Keil.]

“ERA PRECISO DECORAR O METRO”: MARIA KEIL E A RENOVAÇÃO DA AZULEJARIA EM PORTUGAL NOS ANOS DE 1950

29​​ ​de​ Novembro ​​de​ ​2017​ ​|​ ​18h00​ ​|​ ​Faculdade​ ​de​ ​Letras​ ​da​ ​Universidade​ ​de​ ​Lisboa​ ​|​ ​sala​ ​5.2

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Resumo

Durante séculos, os azulejos assumiram um papel determinante na arte portuguesa, enquanto elementos decorativos valorizadores da arquitectura. No entanto, nas décadas de 20 e 30 do século XX, a difusão de uma arquitectura racionalista, que recusava a ornamentação em favor da evidência da estrutura construtiva e da pureza geométrica dos volumes, remeteu o azulejo para os espaços de serviços, recusando o seu papel de elemento decorativo.

Nos anos de 1950, Maria Keil e outros artistas portugueses, deram início a uma processo de renovação da azulejaria de revestimento, procurando criar soluções estéticas dentro da linguagem plástica contemporânea e adequadas à arquitectura da época. O trabalho azulejar de Maria Keil parte, em grande medida, da afirmação do azulejo enquanto superfície autónoma e animada e da construção metódica de efeitos espaciais e ópticos. Os painéis de azulejo que fez para a delegação da TAP em Paris, para o edifício da União Eléctrica Portuguesa, em Setúbal, para um outro edifício na Avenida Infante Santo, em Lisboa ou para as primeiras estações do Metro desta cidade, constituem alguns exemplos da nova linguagem que Maria Keil inventou para o azulejo

Convidado:
Helena Alexandra Mantas [Instituto Superior de Novas Profissões | Direcção da Cultura da SCML]

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“THERE WAS A NEED TO DECORATE THE METRO”: MARIA KEIL AND THE RENEWAL OF THE PORTUGUESE TILE IN THE 1950’S


November 29th, 2017 | 18h00 | Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa | room 5.2

Abstract

For centuries, azulejos
(tiles) have played a decisive role in Portuguese art and architecture. However, in the 1920’s and the 1930’s, the dissemination of a rationalist architecture, which favor the constructive structures and the geometric purity of the volumes, refused the azulejos decorative role.

In the 1950’s, Maria Keil and other Portuguese artists, started a process which aimed the renovation of the azulejos, seeking to create aesthetic solutions in line with the contemporary plastic language and adapted to the architecture of the time. Maria Keil’s tile work is largely based on the affirmation of the azulejo as an autonomous and lively surface and on the methodical construction of spatial and optical effects. The ceramic panels she made for the TAP delegation in Paris, for the Portuguese Electrical Union building in Setúbal, for another building in Infante Santo Avenue, in Lisbon, or for the first Underground stations of this city, are some examples of the new language that Maria Keil invented for the tile.

Invited speaker:
Helena Alexandra Mantas [Instituto Superior de Novas Profissões | Direcção da Cultura da SCML]