“ERA PRECISO DECORAR O METRO”: MARIA KEIL E A RENOVAÇÃO DA AZULEJARIA EM PORTUGAL NOS ANOS DE 1950


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Resumo

A citação de Maria Keil – “era preciso decorar o Metro” – deu o mote à apresentação de Helena Alexandra Mantas, que começou por enfatizar o papel determinante da artista na reabilitação do azulejo nos meados do século XX. A relevância do seu trabalho contrasta vivamente com a forma modesta como a própria o entendia, sem todavia deixar de ter uma postura afirmativa no que diz respeito à defesa do azulejo enquanto suporte de características próprias, que deviam ser exploradas como tal.

Sem deixar de se referir à obra de Maria Keil nas suas diversas facetas, Helena Alexandra Mantas traçou uma breve biografia da artista, centrando depois a sua atenção na azulejaria e, em particular, nas obras da década de 1950, referindo-se ao painel O Mar, na Av. Infante Santo, e às primeiras estações do Metropolitano de Lisboa.

Ao longo do seu discurso, a questão da ligação do trabalho de Maria Keil à arquitectura, por via do seu marido e do ambiente cultural em que se moviam, foi bastante destacada. Mas sempre salientando a linguagem claramente contemporânea da artista, que se articula com uma arquitectura também contemporânea.

Descrevendo o processo de trabalho de Maria Keil, destacou-se o facto de jogar com diversas condicionantes, numa lógica ambivalente em que respeita a arquitectura e tira partido da mesma, trabalhando a partir do que a artista considerava ser a primeira condicionante do azulejo – um quadrado de 14×14 cm. Partindo da lógica do padrão, cria módulos de repetição (e não padrões) que combina de formas muito variadas sem se repetirem, desenhando ritmos e percursos susceptíveis de acentuar a leitura da arquitectura. Maria Keil joga com os contrastes de formas, de cor ou de proporção, que lhe permitem obter efeitos dinâmicos, pausas, ilusões ópticas, opacidades, transparências… Também investiga a história da azulejaria, que cita amiúde, a par das técnicas que experimenta na Viúva Lamego, uma espécie de laboratório em que sempre trabalhou.

A importância de Maria Keil nesta época mede-se, precisamente, pela nova linguagem que assumiu, abrindo um outro caminho para o azulejo, mas sem esquecer o passado, aplicando na azulejaria muito do que aprendeu em outras áreas, como as artes gráficas.

Terminada a apresentação, o público colocou várias perguntas à oradora, num debate animado, moderado por Ana Almeida. Dúvidas sobre se Maria Keil introduzia alterações ao projecto já em fase de obra, o que raramente acontecia; sobre o trabalho na Viúva Lamego; ou ainda sobre a questão da paleta cromática que usava, sempre muito contida mas variada de obra para obra, foram algumas das questões levantadas. Discutiu-se, ainda, a relação entre as mais recentes intervenções nas estações de Metro e o diálogo (ou não) que estabelecem com os revestimentos de Maria Keil. Por fim, Helena Alexandra Mantas recordou que a artista tinha um entendimento tão profundo das características do azulejo que afirmava que, por vezes, bastava uma parede revestida por azulejos brancos, pois se a luz fosse bem dirigida criava os ritmos e a ligação à arquitectura necessários. Na verdade, Maria Keil tinha uma perspectiva quase “extemporânea” do azulejo, pois estava mais alinhada com o entendimento actual do mesmo do que o que seria expectável nos anos de 1950.

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“THERE WAS A NEED TO DECORATE THE METRO”: MARIA KEIL AND THE RENEWAL OF THE PORTUGUESE TILE IN THE 1950’S


Session overview

Maria Keil’s quote – “there was a need to decorate the Metro” – set the tone for the presentation of Helena Alexandra Mantas, who started by emphasizing the decisive role of the artist in the rehabilitation of the azulejo (tile) in the middle of the 20th century. The relevance of her work contrasts sharply with the modest way as she understood it herself without, however, having an affirmative attitude regarding the defense of the tile as a support of its own characteristics, which should be explored as such.

While referring to the work of Maria Keil in its various aspects, Helena Alexandra Mantas drew a brief biography of the artist. Afterwards, she focused her attention on the tiles, and in particularly, in the works of the 1950’s, referring the panel O Mar, at Infante Santo Avenue, and the firsts stations of the Lisbon Underground.

Throughout her speech, the question of the connection of Maria Keil’s work to architecture, through her husband and the cultural environment in which they moved, was quite prominent. But always emphasizing the clearly contemporary language of the artist, which is articulated with a contemporary architecture.

Describing the process of Maria Keil’s work, it was highlighted the fact that she playing with several conditions, in an ambivalent logic in which she respects the architecture and takes advantage of it, working from what the artist considered to be the first conditioning of the tile – a square of 14×14 cm. Starting from the logic of the pattern, she creates repetition modules (not patterns) that she combines in many different ways without repeating them, drawing rhythms and paths that can accentuate the reading of the architecture. Maria Keil plays with the contrasts of shapes, colour or proportion, which allow her to obtain dynamic effects, pauses, optical illusions, opacities, transparencies … She also investigates the history of tiles, which she often quotes, along with the techniques she experiments in the Viúva Lamego Factory, a kind of laboratory where she has always worked.

The importance of Maria Keil at this time is measured, precisely, by the new language she has taken, opening up another path to the tile but not forgetting the past, applying in the tiles much of what she learned in other areas, such as the graphic arts.

After the presentation, the audience asked the speaker several questions in an animated debate moderated by Ana Almeida. Doubts as to whether Maria Keil introduced changes to the project already under construction, which rarely happened; on the work in the Viúva Lamego Factory; or on the question of the chromatic palette she used, always very contained but varied from work to work, were some of the issues raised. It was also discussed the relationship between the most recent interventions in the Underground stations and the dialogue (or not) that they establish with the coverings of Maria Keil. Finally, Helena Alexandra Mantas recalled that the artist had such a deep understanding of the characteristics of the tile that she affirmed that, sometimes, a wall covered by white tiles was enough, because if the light was well directed it created the necessary rhythms and connection to the architecture. In fact, Maria Keil had an almost “extemporaneous” perspective on tiles, so much more in line with the actual understanding of it than with what would be expected in the 1950s.

“ERA PRECISO DECORAR O METRO”: MARIA KEIL E A RENOVAÇÃO DA AZULEJARIA EM PORTUGAL NOS ANOS DE 1950

29​​ ​de​ Novembro ​​de​ ​2017​ ​|​ ​18h00​ ​|​ ​Faculdade​ ​de​ ​Letras​ ​da​ ​Universidade​ ​de​ ​Lisboa​ ​|​ ​sala​ ​5.2

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Sugestões de leitura

Catálogos de exposição:
Maria Keil – De Propósito, Obra Artística. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2014.
[Catálogo da exposição com o mesmo título, organizada em núcleos temáticos que revelam as diferentes facetas do seu percurso artístico: Azulejo; Pintura e Desenho; Cenografia e Figurinos; Design Gráfico e Publicidade; Ilustração; Mobiliário e Decoração; Tapeçaria Mural.

PEREIRA, João Castel-Branco – Maria Keil. Azulejo. Lisboa: Instituto Português do Património Cultural / Museu Nacional do Azulejo, 1989.
[Catálogo de exposição retrospectiva da obra para azulejo de Maria Keil (até 1989). Contém textos e entrevista à artista.]

Teses:
MANTAS, Helena Alexandra Jorge Soares – Maria Keil, uma operária das artes (1914-2012). Arte Portuguesa do século XX. Tese de Doutoramento em História da Arte. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2013. [disponível em https://estudogeral.sib.uc.pt/jspui/handle/10316/24453].
[Tese de doutoramento que aborda as diversas áreas artísticas a que Maria Keil se dedicou, e entre as quais se destacam as artes gráficas, a publicidade, a ilustração, a azulejaria, o desenho e a pintura.]

Outras monografias:
Maria Keil: metros do meu azulejo. Lisboa: Metropolitano de Lisboa, 1999.
[Publicação com imagens do interior das estações do Metropolitano de Lisboa com revestimentos da autoria de Maria Keil.]

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“THERE WAS A NEED TO DECORATE THE METRO”: MARIA KEIL AND THE RENEWAL OF THE PORTUGUESE TILE IN THE 1950’S


November 29th, 2017 | 18h00 | Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa | room 5.2

Reading suggestions

Exhibition catalogues:
Maria Keil – De Propósito, Obra Artística. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2014.
[Catalogue of the exhibition with the same title, organized in thematic nuclei that reveal the different facets of her artistic path: Azulejo (Tile); Painting and Drawing; Scenographies and Costumes; Graphic Design and Advertising; Illustration; Furniture and Decoration; Wall Tapestry.]

PEREIRA, João Castel-Branco – Maria Keil. Azulejo. Lisboa: Instituto Português do Património Cultural / Museu Nacional do Azulejo, 1989.
[Retrospective exhibition catalogue of Maria Keil’s azulejo (tile) work (until 1989). Contains texts and interviews with the artist.]

Thesis:
MANTAS, Helena Alexandra Jorge Soares – Maria Keil, uma operária das artes (1914-2012). Arte Portuguesa do século XX. Tese de Doutoramento em História da Arte. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2013. [available on: https://estudogeral.sib.uc.pt/jspui/handle/10316/24453].
[PhD thesis that approaches the various artistic areas to which Maria Keil dedicated herself, among which the graphic arts, advertising, illustration, azulejos (tiles), drawing and painting.]

Other monographs:
Maria Keil: metros do meu azulejo. Lisboa: Metropolitano de Lisboa, 1999.
[Publication with images of the interior of the Lisbon Underground stations with coverings by Maria Keil.]

“ERA PRECISO DECORAR O METRO”: MARIA KEIL E A RENOVAÇÃO DA AZULEJARIA EM PORTUGAL NOS ANOS DE 1950

29​​ ​de​ Novembro ​​de​ ​2017​ ​|​ ​18h00​ ​|​ ​Faculdade​ ​de​ ​Letras​ ​da​ ​Universidade​ ​de​ ​Lisboa​ ​|​ ​sala​ ​5.2

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Resumo

Durante séculos, os azulejos assumiram um papel determinante na arte portuguesa, enquanto elementos decorativos valorizadores da arquitectura. No entanto, nas décadas de 20 e 30 do século XX, a difusão de uma arquitectura racionalista, que recusava a ornamentação em favor da evidência da estrutura construtiva e da pureza geométrica dos volumes, remeteu o azulejo para os espaços de serviços, recusando o seu papel de elemento decorativo.

Nos anos de 1950, Maria Keil e outros artistas portugueses, deram início a uma processo de renovação da azulejaria de revestimento, procurando criar soluções estéticas dentro da linguagem plástica contemporânea e adequadas à arquitectura da época. O trabalho azulejar de Maria Keil parte, em grande medida, da afirmação do azulejo enquanto superfície autónoma e animada e da construção metódica de efeitos espaciais e ópticos. Os painéis de azulejo que fez para a delegação da TAP em Paris, para o edifício da União Eléctrica Portuguesa, em Setúbal, para um outro edifício na Avenida Infante Santo, em Lisboa ou para as primeiras estações do Metro desta cidade, constituem alguns exemplos da nova linguagem que Maria Keil inventou para o azulejo

Convidado:
Helena Alexandra Mantas [Instituto Superior de Novas Profissões | Direcção da Cultura da SCML]

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“THERE WAS A NEED TO DECORATE THE METRO”: MARIA KEIL AND THE RENEWAL OF THE PORTUGUESE TILE IN THE 1950’S


November 29th, 2017 | 18h00 | Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa | room 5.2

Abstract

For centuries, azulejos
(tiles) have played a decisive role in Portuguese art and architecture. However, in the 1920’s and the 1930’s, the dissemination of a rationalist architecture, which favor the constructive structures and the geometric purity of the volumes, refused the azulejos decorative role.

In the 1950’s, Maria Keil and other Portuguese artists, started a process which aimed the renovation of the azulejos, seeking to create aesthetic solutions in line with the contemporary plastic language and adapted to the architecture of the time. Maria Keil’s tile work is largely based on the affirmation of the azulejo as an autonomous and lively surface and on the methodical construction of spatial and optical effects. The ceramic panels she made for the TAP delegation in Paris, for the Portuguese Electrical Union building in Setúbal, for another building in Infante Santo Avenue, in Lisbon, or for the first Underground stations of this city, are some examples of the new language that Maria Keil invented for the tile.

Invited speaker:
Helena Alexandra Mantas [Instituto Superior de Novas Profissões | Direcção da Cultura da SCML]

“ERA PRECISO DECORAR O METRO”: MARIA KEIL E A RENOVAÇÃO DA AZULEJARIA EM PORTUGAL NOS ANOS DE 1950

29​​ ​de​ Novembro ​​de​ ​2017​ ​|​ ​18h00​ ​|​ ​Faculdade​ ​de​ ​Letras​ ​da​ ​Universidade​ ​de​ ​Lisboa​ ​|​ ​sala​ ​5.2

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Convidado:
Helena Alexandra Mantas [Instituto Superior de Novas Profissões | Direcção da Cultura da SCML]

Helena Alexandra Mantas é licenciada em História, variante de História da Arte, pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; Mestre em Arte, Património e Restauro pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Doutorada em História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Apresentou em 2013 a sua tese de doutoramento Maria Keil: uma operária das artes.

É docente no Instituto Superior de Novas Profissões, em Lisboa, e directora do Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultura da Direção da Cultura da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, sendo responsável  pela programação educativa e cultural do Museu de São Roque, Arquivo Histórico e Biblioteca da instituição.

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“THERE WAS A NEED TO DECORATE THE METRO”: MARIA KEIL AND THE RENEWAL OF THE PORTUGUESE TILE IN THE 1950’S


November 29th, 2017 | 18h00 | Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa | room 5.2

Invited speaker:
Helena Alexandra Mantas [Instituto Superior de Novas Profissões | Direcção da Cultura da SCML

Helena Alexandra Mantas has a degree in History, Art History, from the Faculty of Letters of the University of Coimbra. She has a Master’s degree in Art, Heritage and Restoration by the School of Arts and Humanities of the University of Lisbon and a PhD in Art History by the Faculty of Letters of the University of Coimbra. In 2013, she presented her PhD thesis: Maria Keil: uma operária das artes (Maria Keil: a worker of the arts).

She teaches at the Higher Institute of New Professions (INP) in Lisbon. Helena Alexandra Mantas is director of the Public Affairs and Culture Development Department of the Cultural Direction of the Santa Casa da Misericórdia in Lisbon, being responsible for the educational and cultural programming of the Museu de São Roque, Historical Archive and Library of the same institution.

“ERA PRECISO DECORAR O METRO”: MARIA KEIL E A RENOVAÇÃO DA AZULEJARIA EM PORTUGAL NOS ANOS DE 1950

29​​ ​de​ Novembro ​​de​ ​2017​ ​|​ ​18h00​ ​|​ ​Faculdade​ ​de​ ​Letras​ ​da​ ​Universidade​ ​de​ ​Lisboa​ ​|​ ​sala​ ​5.2

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O próximo AzLab#34 é dedicado a Maria Keil (1914-2012)! A nossa convidada, Helena Alexandra Mantas, que estudou a obra desta artista no contexto da sua tese de doutoramento (defendida em 2013), irá privilegiar o papel de Maria Keil na renovação da linguagem da azulejaria portuguesa na segunda metade do século XX.
Não percam o resumo da sessão, que publicaremos em breve.

Convidado:
Helena Alexandra Mantas [Instituto Superior de Novas Profissões | Direcção da Cultura da SCML]

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“THERE WAS A NEED TO DECORATE THE METRO”: MARIA KEIL AND THE RENEWAL OF THE PORTUGUESE TILE IN THE 1950’S


November 29th, 2017 | 18h00 | Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa | room 5.2

The next AzLab#34 is dedicated to Maria Keil (1914-2012)! Our guest, Helena Alexandra Mantas, who studied the work of this artist in the context of her PhD thesis (defended in 2013), will focus on the role of Maria Keil in the renewal of the language of Portuguese azulejos (tiles) in the second half of the 20th century.
Do not miss the summary of the session, which we will publish soon.

Invited speaker:
Helena Alexandra Mantas [Instituto Superior de Novas Profissões | Direcção da Cultura da SCML]

A MÚSICA NOS AZULEJOS [sessão reagendada]

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Resumo

No regresso a mais uma temporada dos seminários AzLab, a investigadora Luzia Rocha abordou o tema da “música nos azulejos”, numa sessão repleta de iconografia musical e complementada pela audição de alguns dos instrumentos musicais em análise.

Começando por se referir à importância do conhecimento dos instrumentos musicais na leitura e interpretação da arte e, em particular, da azulejaria, Luzia Rocha centrou depois a sua comunicação em dois estudos de caso, ambos relativos à música em grupos com um papel social e musical muito bem definidos no período barroco – ciganos e cegos. A questão a que se procurou responder, com estes exemplos, incidia sobre a existência, ou não, na azulejaria de instrumentos musicais de raiz portuguesa / ibérica.

No primeiro caso, a investigadora identificou cenas da Fuga para o Egipto com ciganas, nas quais estas mulheres tocam um pandeiro triangular que, como explicou, é um instrumento popular português (não existe com esta forma em Espanha), com raízes no século XVIII, da região norte do país, constituindo os dois exemplos citados – Igreja de Santa Maria Maior, em Barcelos e Igreja de Nossa Senhora da Conceição, no Crato – a fonte iconográfica mais antiga destes instrumentos. A sua leitura não se restringe, todavia, aos pandeiros e à sua história, pois Luzia Rocha procura integrá-los em contextos mais vastos – sociais, políticos, religiosos, culturais -, numa interpretação alargada e integrada.

No segundo caso apresentado, a investigadora identificou cegos músicos e os diferentes instrumentos que tocam, associando-os a cenas de caminhantes e viajantes e a músicos de rua, representadas em azulejos aplicados em diversos locais do país. Destacou a sanfona, o tambor, a pandeireta e a flauta-tambor, referindo que apenas em uma representação se observa um cordofone friccionado semelhante a um violino, ou que os cegos podiam ser também cantores. Estes cegos eram geralmente acompanhados por um moço, que os guiava tocando tambor (e por vezes flauta de tamborileiro) e por um cão, com um papel defensivo e simultaneamente recreativo / performativo.

No período de debate que se seguiu, as perguntas relacionaram-se com questões específicas suscitadas pela apresentação, como por exemplo as razões da escolha da sanfona (instrumento popular, mais barato, fácil de executar e que permitia uma boa performance musical) e por outras de âmbito mais alargado, destacando-se a importância dos olhares cruzados entre as diversas áreas do saber que, como ficou bem expresso neste AzLab, tanto contribuem para um conhecimento mais sustentado da azulejaria portuguesa.

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AZULEJOS AND MUSIC [rescheduled session]


Session Overview

Returning to another season of the AzLab seminars, the researcher Luzia Rocha talked about “azulejos and music” in a session full of musical iconography and complemented by the audition of some of the musical instruments under analysis.

She started by mentioning the importance of knowledge of the musical instruments when reading and interpreting art and, in particular, the azulejos (tiles), and later focused her communication on two case studies, both related to music in groups with a social and musical role very well defined in the baroque period – gypsies and the blind. With these examples, the question that was sought to answer was whether or not there were present, in azulejos , musical instruments of a Portuguese / Iberian root.

In the first case study, the researcher identified scenes of the Flight into Egypt with gypsies, in which these women play a triangular tambourine. As she explained, this is a popular Portuguese instrument (it does not exist with this form in Spain), of the country’s northern region, with roots in the 18th century, constituting the two examples cited – Church of Santa Maria Maior, Barcelos and Church of Nossa Senhora da Conceição, Crato – their oldest iconographic sources. Her reading is not restricted, however, to the tambourines and their history, because Luzia Rocha tries to integrate them in broader contexts – social, political, religious, cultural – in an extensive and integrated interpretation.

In the second case study, the researcher identified blind musicians and the different instruments they play, associating them with scenes of hikers and travelers and street musicians, represented in tiles applied in various locations throughout the country. Luzia Rocha highlighted the hurdy-gurdy, the drum, the tambourine and the drum-flute, noting that only in one representation does one observe a violin-like rubbed chordophone, or that the blind could also be singers. These blind people were usually accompanied by a young man, who guided them by playing the drum (and sometimes the drummer’s flute) and by a dog, with a defensive and simultaneously recreational / performative role.

In the ensuing debate period, the questions concerned specific issues raised by the presentation, such as the reasons for choosing the hurdy-gurdy (popular instrument, cheaper, easy to perform and that allowed for a good musical performance) and by others of a wider scope. It was also highlighted the importance of cross-views between the various areas of knowledge that, as was well expressed in this AzLab, contribute to a more sustained knowledge of the Portuguese tiles.

A MÚSICA NOS AZULEJOS [sessão reagendada]

18​​ ​de​ Outubro ​​de​ ​2017​ ​|​ ​18h00​ ​|​ ​Faculdade​ ​de​ ​Letras​ ​da​ ​Universidade​ ​de​ ​Lisboa​ ​|​ ​sala​ ​5.2
[esta sessão devia ter acontecido em Abril, mas foi adiada por motivos de força maior]

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A convidada do AzLab#31, Luzia Rocha, é uma das mais reputadas investigadoras portuguesas na área da iconografia musical. Na sua tese de doutoramento explorou a música na azulejaria barroca, tema que será o mote para a próxima sessão do AzLab, em que nos propõe uma perspectiva renovada sobre este período da história do azulejo em Portugal, através das suas muitas e interessantes representações musicais.

Convidado:
Luzia Rocha [Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (CESEM) | Instituto de História da Arte, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa (IHA-FCSH/UNL) | Az-Rede de Investigação em Azulejo (ARTIS-IHA/FLUL)]

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AZULEJOS AND MUSIC [rescheduled session]


October 18th,
2017 | 18h00 | Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa | room 5.2
[this session should have taken place in April, but was postponed on grounds of force majeure]

Luzia Rocha, guest of the AzLab#31, is one of the most renowned Portuguese researchers in the area of ​​musical iconography. In her doctoral thesis she explored the music in Baroque azulejos, theme of the next AzLab, in which she proposes a renewed perspective on this period of the history of Portuguese azulejo, through its many and interesting musical representations.

Invited speaker:
Luzia Rocha [Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (CESEM) | Instituto de História da Arte, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa (IHA-FCSH/UNL) | Az-Rede de Investigação em Azulejo (ARTIS-IHA/FLUL)]