Ao longo das últimas semanas temos recebido alguns comentários ao AzLab e várias sugestões, que muito agradecemos. Uma sugestão importante, e que passaremos a seguir já na próxima sessão, é a de clarificar, na divulgação e principalmente no próprio blogue, que é possível fazer perguntas no blogue/por e-mail, para serem respondidas na sessão presencial. O moderador escolhe algumas dessas questões, articulando as mesmas com as intervenções da assistência. As perguntas e uma síntese das respostas serão publicadas no blogue.
Outra sugestão prende-se com a possibilidade de fazer uma síntese que, no blogue, funcionasse como memória das apresentações e do debate. Queremos que o blogue seja, cada vez mais, um espaço de debate e que, quem esteve nas sessões, possa acrescentar comentários à nossa “acta”. Por isso aqui fica um breve resumo do que se passou em Janeiro.

O AzLab Azulejo & Coleccionismo teve início com apresentações de cada um dos convidados. Feliciano David começou por contar a história da formação da sua colecção e, depois, António Miranda falou sobre o Museu da Cidade abordando alguns dos seus espólios, e referindo-se ainda à sua própria colecção de cerâmica. Houve algumas perguntas da assistência que, juntamente com a moderação de Alexandre Pais e na sequência da intervenção de António Miranda, conduziram o debate no sentido da ideia do coleccionismo como uma obsessão, e onde não faltaram referências a Hitchcock.
As imagens da sessão foram publicadas no facebook do Az Infinitum e houve um comentário do Professor Vítor Serrão, que transcrevemos: “Foi uma excelente sessão, muito esclarecedora, com a moderação de Alexandre Pais e os testemunhos de Feliciano David e António Miranda, sobre as colecções de azulejo e cerâmica e, de modo mais lacto, sobre o coleccionismo em Portugal. Estes painéis-debate prometem!”.

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Over the past few weeks we have received several comments and suggestions to AzLab, that we truly appreciate. An important suggestion, which we will follow on the next session, is to clarify (in the dissemination and mainly on the blog) that you can ask questions on the blog or by email. The moderator will choose some of these questions to be answered during the live session. The questions and a summary of the answers will be posted on the blog.
Another proposal relates to the possibility of making a synthesis which, on the blog, will work as a memory of the presentations and of the following discussion. More and more, we want the blog to be a place for debate where who were present in the sessions can add comments to our “records”. And here is a brief summary of what happened in January.

The AzLab Azulejo & Collections started with presentations of the guests. Feliciano David began to tell the story of his collection and Antonio Miranda spoke about the Lisbon City Museum addressing some of its collections, mentioning  also his own ceramic collection. There were some questions from the audience which, together with the moderation of Alexandre Pais and following the intervention of Antonio Miranda, led the discussion towards the idea of collecting as an obsession, and there were no lack of references to Hitchcock!
Photos of the session were published in the Az Infinitum facebook and there was a comment from Professor Vítor Serrão, that we transcribe here: “It was a great session, very enlightening, with the moderation of Alexandre Pais and the testimonies of Feliciano David and Antonio Miranda, on collections of azulejo and ceramic and, in a wider view, on collecting in Portugal. These debate-panels are promising”.

Azulejo & Coleccionismo

22 de Janeiro de 2014 | 18h00 | Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa | sala 5.2

3 perguntas | ao Comendador Berardo, a propósito da Colecção Berardo

Qual a história da origem da colecção?
A minha paixão pelos azulejos começou nos bancos da escola primária. Havia, junto à janela da sala de aula, um azulejo com a imagem de um cavaleiro com uma espada e umas grandes botas e eu ficava maravilhado a olhar para ele, a imaginar mil histórias e aventuras. Cresci, “percorri as sete partilhas do mundo” e às vezes, vinha-me à memória a figura do cavaleiro, como um sonho… Ao regressar a Portugal, vindo da África do Sul, descobri e naturalmente interessei-me e apaixonei-me pela azulejaria portuguesa. Fiquei fascinado pela história e cultura que os azulejos transmitem, pela sua beleza, pela variedade de desenhos e pela gama de azuis que possuem.  Foi, então, que aconselhado por colaboradores, historiadores de arte e consultores, como o meu amigo Manuel Leitão, pessoa fundamental neste processo, comecei a minha Colecção.

Há preocupação em documentar as proveniências?
É fundamental! Pois, como sabemos, o colecionismo do azulejo “obriga” a uma desvinculação física e estética do seu contexto original: o arquitectónico. Ainda que, no meu caso, me sinta particularmente felizardo, por ter alguns exemplares in situ na Quinta e Palácio da Bacalhôa.
Contudo, reconheço que é, também, o colecionismo, seja ele público ou privado, que permite a salvaguarda, preservação e difusão desta forma de arte que, não poucas vezes, é alvo de saques e vandalismo.
Como é do conhecimento público tenho várias colecções e em qualquer umas delas, há sempre a preocupação em documentar as proveniências originais, os anteriores colecionadores/proprietários, oficinas, fabricantes, autores, etc. Dou-lhe um exemplo interessante, tenho alguns azulejos a ornamentar a minha casa do Canadá, que são mais antigos que a descoberta daquele país. A documentação é imprescindível!

Como vê o futuro da sua Colecção?
Vejo o futuro da Colecção com muito optimismo. Pois, felizmente, toda a minha família gosta de arte e, embora, tenhamos diferentes países de origem, vivemos todos em Portugal, onde a azulejaria não é apenas uma expressão artística, é também um testemunho, que contribui para o enriquecimento da nossa memória e da nossa identidade.
O meu maior desejo é que a Colecção não se disperse, à semelhança do que aconteceu à Colecção do Comandante Ernesto Vilhena, e outros, que terminaram em leilões, perdendo o seu valor de coleccionismo.
Ando sempre a ver novas peças para aumentar a minha colecção, mas agora, só faz sentido ver outros colecionadores porque, afortunadamente, posso dizer que já tenho um conjunto de obras representativas da História do Azulejo em Portugal.

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Foto: 6ª Exposição Temporária – Azulejaria. Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, 1947 [© Biblioteca de Arte | Fundação Calouste Gulbenkian]

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AZULEJO & COLLECTIONS

January 22, 2014 | 18h00 | Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa |  room 5.2

3 questions | to Comendador Berardo about the Berardo Collection

What’s the history behind the origin of the collection?
My passion for tiles began on the benches at primary school. There, next to the classroom window, was a tile panel with the image of a knight wearing big boots and carrying a sword and I would sit there amazed, just looking at him, imagining a thousand stories and adventures. I grew up, “travelled the seven continents of the world” and from time to time the figure of that knight would come to my mind, like a dream … On my return to Portugal from South Africa, I discovered, became interested and fell in love with portuguese tiles. I was fascinated by the history and culture that the tiles transmitted, for their beauty, variety of designs and the range of blues that they held. It was then, recommended by art historians and consultants, such as my friend Manuel Leitão, key person in this process, that I began my collection.

Is there a concern in documenting the provenances?
It is essential! For, as we know, collecting tiles “requires” a physical and aesthetic disconnection of their original context: the architectural.  In my case, I feel particularly lucky for having some specimens in situ at the Quinta da Bacalhôa.
However, I recognize that it is also it’s collection, whether public or private, that allows the protection, preservation and diffusion of this art form, as not infrequently, is it the target of looting and vandalism.
As is public knowledge, I have several collections and in any one of them, there is always a concern to document the original provenances, the previous collectors/ owners, workshops, manufacturers, authors, etc. I will give you an interesting example: I have some tiles that decorate my home in Canada, which are older than the discovery of that country. Documentation is essential!

How do you see the future of your collection?
I see the future of the collection with much optimism. Fortunately, my whole family enjoys art, and although we have different countries of origin, we all live in Portugal, where tiles are not just an artistic expression, it is also a testimony that contributes to the enrichment of our memory and of our identity.
My greatest desire is that the collection is not dispersed, similar to that which happened to the Collection of Commander Ernesto Vilhena, and others, that ended up in auctions, losing their collection value.
I am always looking at new pieces to increase my collection, but now it only makes sense to see other collectors because, fortunately, I can say that I already have a set of representative works of the History of Tiles in Portugal.

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Photo: 6ª Exposição Temporária – Azulejaria. Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, 1947 [© Biblioteca de Arte | Fundação Calouste Gulbenkian]

Azulejo & Coleccionismo

22 de Janeiro de 2014 | 18h00 | Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa | sala 5.2

A importância de documentar os contextos originais
Só se protege aquilo que se conhece! Quando se fala de património e da sua protecção é esta a ideia que prevalece. Sem o seu conhecimento, as condições para uma correcta salvaguarda não estão reunidas, quer do ponto de vista técnico-científico, quer dor ponto de vista ideológico ou mesmo emotivo, essenciais para evitar episódios de negligência ou mesmo de pura iconoclastia. Porém, uma outra ideia devia preceder a já referida: o conhecimento está intimamente ligado ao verificável. Assim se entende a importância do registo fotográfico de uma obra de arte. Esta ideia é tanto ou mais importante quando se fala em revestimentos azulejares concebidos para integrarem uma estrutura arquitectónica, mas que dela são retirados pelas mais diversas razões. Há assim, um “antes” e um “depois” que as gerações futuras não poderão conhecer. Por isso, uma fotografia é um espaço-tempo na vida de um revestimento azulejar e, nesse sentido, é um acto de construção de memória desse mesmo revestimento. Sem estes documentos visuais o seu conhecimento e a sua salvaguarda podem ser postos em causa, o que, em última análise, constitui uma ameaça à sua existência.

Inês Aguiar    | Fotógrafa e investigadora da Rede Temática em Estudos de Azulejaria e Cerâmica João Miguel dos Santos Simões. Bolseira FCT do Museu Nacional do Azulejo |

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Foto: 6ª Exposição Temporária – Azulejaria. Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, 1947 [© Biblioteca de Arte | Fundação Calouste Gulbenkian]

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AZULEJO & COLLECTIONS

January 22, 2014 | 18h00 | Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa |  room 5.2

The Importance of documenting the original contexts
We only protect that which we know! When talking of heritage and of its protection this is the idea that prevails. Without its knowledge, the conditions for proper safeguard are not met, be it both from a technical and scientific standpoint, or an ideological or even emotive one, essential to avoiding episodes of neglect or even pure iconoclasm. However, another idea should precede the aforementioned: knowledge is intimately linked to the verifiable. So we understand the importance of the photographic record of a work of art. This idea is as or more important when it comes to an azulejo covering designed to integrate an architectural structure, but that has been removed for various reasons. Thus, there is a “before” and “after” that future generations may not know. Therefore, a photograph is a space-time fraction in the life of a tile covering, and in this sense, becomes an act of memory construction of that covering. Without these visual documents its knowledge and its preservation may be jeopardized, which ultimately, is a threat to its existence.

Inês Aguiar    | Photographer and researcher at João Miguel dos Santos Simões Thematic Network on the Study of Tiles and Ceramics. FCT grant holder from National Museum of Azulejo |

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Photo: 6ª Exposição Temporária – Azulejaria. Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, 1947 [© Biblioteca de Arte | Fundação Calouste Gulbenkian]

Azulejo & Coleccionismo

22 de Janeiro de 2014 | 18h00 | Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa | sala 5.2

Convidados:
Feliciano David
António Miranda [Museu da Cidade, Lisboa]

Moderador:
Alexandre Pais [Museu Nacional do Azulejo]

A Colecção Graciete Rodrigues e Feliciano David conta actualmente com cerca de cinco a seis dezenas de milhar de azulejos, numa cronologia que tem início nos exemplares do séc. XVI e termina na primeira metade do séc. XX. Para além da colaboração com o Museu de Cerâmica de Sacavém, com o Museu de Cerâmica das Caldas da Rainha e com o Museu Nacional do Azulejo no depósito e empréstimo de peças para exposições temporárias e exposição permanente, merecem especial destaque as últimas três exposições realizadas exclusivamente com azulejos desta colecção: figura avulsa (2011), Arte Nova (2011-2012) e Arte Déco (2013).

António Miranda é coordenador-geral do Museu da Cidade, Lisboa, desde Maio de 2013. Licenciado em História pela Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa, possui ainda o Curso de Especialização em Ciências Documentais pela mesma instituição. Trabalha na Câmara Municipal de Lisboa desde 1991, onde desempenhou diversas funções na área patrimonial, das quais se destacam a sua colaboração nos gabinetes locais do Bairro Alto, Bica e Madragoa no âmbito da qual desenvolveu investigação histórica e iconográfica sobre a cidade, nomeadamente azulejaria. Integra ainda o PISAL – Programa de Investigação e Salvaguarda do Azulejo de Lisboa. Colaborou como consultor histórico de diversos projectos e é ainda autor de diversas publicações na área de história da cidade de Lisboa.

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Foto: 6ª Exposição Temporária – Azulejaria. Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, 1947 [© Biblioteca de Arte | Fundação Calouste Gulbenkian]

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AZULEJO & COLLECTIONS

January 22, 2014 | 18h00 | Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa |  room 5.2

Invited speakers:
Feliciano David
António Miranda [Lisbon City Museum]

Moderator:
Alexandre Pais [National Museum of Azulejo]

The Collection Graciete Rodrigues and Feliciano David currently has about five to six tens of thousands of tiles, in a chronology that begins with tiles from the 16th century up to the first half of the 20th century. In addition to the collaboration with the Museum of Ceramics of Sacavém, the Museum of Ceramics of Caldas da Rainha and the National Museum of Azulejo in the deposit and loaning of pieces to temporary exhibitions and permanent exhibitions, they deserve a special mention for the last three exhibitions held exclusively with tiles from the collection: single figure (2011), Art Nouveau (2011-2012) and Art Deco (2013).

António Miranda has been general-coordinator of the Lisbon City Museum since May 2013. He has a degree in History from the Faculty of Letters, University of Lisbon, and also has the Specialized Course on Documental Sciences from the same institution. António Miranda has worked in the Lisbon municipality since 1991, developing different roles on the heritage area, from which his collaboration with Bairro Alto, Bica and Madragoa heritage departments is highlighted. He developed historical and iconographic research about the city, and particularly, about tiles. He is also integrated in  the PISAL –  Programa de Investigação e Salvaguarda do Azulejo de Lisboa (Research Program and Safeguard of Tiles in Lisbon). He collaborated as historical consultant in different projects and is author of diverse publications in the history of Lisbon.

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Photo: 6ª Exposição Temporária – Azulejaria. Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, 1947 [© Biblioteca de Arte | Fundação Calouste Gulbenkian]

Azulejo & Coleccionismo

22 de Janeiro de 2014 | 18h00 | Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa | sala 5.2

O azulejo português caracteriza-se pela sua dimensão arquitectónica, na medida em que se relaciona com o espaço onde se encontra aplicado e para o qual foi concebido. Mas caracteriza-se, também, pelo diálogo que estabelece com as manifestações artísticas presentes nesse mesmo espaço que, como a arquitectura, tantas vezes simula. Os muitos exemplares que permanecem in situ, um pouco por todo o país, desde os primeiros exemplos de aplicações, ainda no século XV, até à actualidade, testemunham a riqueza de soluções experimentadas por ladrilhadores, pintores ou encomendadores, e que fazem do azulejo português um património único.

 Retirar qualquer revestimento do espaço em que se integra significa descontextualizá-lo e privá-lo das múltiplas leituras que estiveram na sua origem ou que o enriqueceram ao longo dos tempos. Todavia, nem sempre é possível a preservação destes exemplares in situ e, quando está em risco a perda integral do revestimento, tem-se optado por conservar os azulejos, descontextualizando-os.

É este dilema, da conservação in situ e da preservação do possível, aliada ao coleccionismo, que a primeira sessão do AzLab pretende discutir. Contamos com a presença de um colecionador, o Eng. Feliciano David, e do director do Museu da Cidade, o Dr. António Miranda.

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Foto: 6ª Exposição Temporária – Azulejaria. Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, 1947 [© Biblioteca de Arte | Fundação Calouste Gulbenkian]

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Azulejo & collections

January 22, 2014 | 18h00 | Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa |  room 5.2

The Portuguese tile is characterized by its architectural dimension, insofar as it relates to the area where it is applied and for which it is designed. But it is also characterized by establishing dialogue with the artistic manifestations present in the same space, such as architecture, which it often simulates. The many copies that remain in situ, all over the country, from the earliest examples of applications in the 15th century to the present, witness the wealth of solutions experienced by tilers, painters or commissioners, and which form the Portuguese tile as a unique heritage.

Removing any covering from a space where it is integrated means decontextualizing and depriving it of the multiple readings and richness that were derived over time. However, it is not always possible to preserve these specimens in situ, and the full loss of the covering is at risk, having opted to keep the tiles, decontextualizing them.

It is this dilemma, in situ conservation and preservation where possible, coupled with the collections, that the first session of AzLab discusses. We have the presence of an collector, Engineer David Feliciano, and the director of the City Museum, Dr. Antonio Miranda.

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Photo: 6ª Exposição Temporária – Azulejaria. Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, 1947 [© Biblioteca de Arte | Fundação Calouste Gulbenkian]