O QUE É O AZULEJO? | WHAT IS A TILE?

 

 

 

 

 

Eduardo Nery
Artista /
Artist

[​ ​—​ ​Please​ ​scroll​ ​down​ ​for​ ​English​ ​version​ ​—​ ​]

“Entendemos que só se pode falar de azulejo, quando a malha formada por muitas peças iguais se define com muita clareza, como uma retícula regular e constante, quer os seus elementos sejam quadrados, quer sejam rectangulares, ou que tenham ainda outros formatos menos usuais. Portanto, o que decide se estamos perante um azulejo é a regularidade e a continuidade da malha com o uso de peças todas iguais, repetidas ou prolongadas ao longo de uma superfície. (…) Por outro lado, se estivermos perante superfícies nas quais se ajustam peças cerâmicas com dois (ou mais) formatos geométricos diferentes, como acontece em muitas mesquitas e palácios muçulmanos, no nosso entender também não se trata de obras em azulejo (…)”.

Eduardo Nery – Apreciação Estética do Azulejo, Lisboa: INAPA, 2007, p. 12-13.

____________________________________________________

“We understand that one can only speak of azulejo (tile), when the mesh formed by many equal parts is defined very clearly, as a regular and constant grid, whether their elements are square, rectangular, or have other less usual shapes. Therefore, what decides if we are facing a tile is the regularity and continuity of the mesh with the use of uniformed pieces, repeated or prolonged along a surface. (…) On the other hand, if we are facing surfaces on which ceramic pieces fit with two (or more) different geometric shapes, as is the case in many Muslim mosques and palaces, in our view, those too are not works of tile (…)”. [free translation]

Eduardo Nery – Apreciação Estética do Azulejo, Lisboa: INAPA, 2007, p. 12-13.

O QUE É O AZULEJO? | WHAT IS A TILE?

 

 

 

 

 

 

 

Maria Emília Silva Araújo
Ceramista / Ceramist

[​ ​—​ ​Please​ ​scroll​ ​down​ ​for​ ​English​ ​version​ ​—​ ​]

Azulejo é emoção, é êxtase ao tocar beleza, é energia condensada a narrar a nossa alma lusa.

Mergulhados na sua dimensão onírica convivem em harmonia estética batalhas sem fim e juras de amor eterno, heróis e rostos sofridos, miséria e júbilo de fartas colheitas, gente antiga e de agora, o gosto salgado das conquistas ultramarinas, o aroma da clorofila de distantes terras quentes.

Nele soa o fado, ecoa saudade funda e a certeza de se atravessar os tempos.

____________________________________________________

Tile is emotion, it is ecstasy when touching beauty, it is condensed energy narrating our Portuguese soul.

Immersed in their dreamlike dimension, endless battles and vows of eternal love, heroes and suffering faces, misery and jubilation of rich harvests, ancient and new people, the salty taste of overseas conquests, the aroma of chlorophyll from distant warm lands coexist in aesthetic harmony.

In it fado sounds, echoes saudade (nostalgia) and the certainty of crossing the times.

O QUE É O AZULEJO? | WHAT IS A TILE?

 

 

 

 

 

 

 
Maria Keil
Artista / Artist

[​ ​—​ ​Please​ ​scroll​ ​down​ ​for​ ​English​ ​version​ ​—​ ​]

Citando Maria Keil  “O azulejo para mim é, antes de tudo, um material de revestimento usado na arquitectura. Isso confere-lhe logo o rótulo de utilitário, portanto Arte Menor, para muita gente. O azulejo é essencialmente uma presença, um brilho. Liso ou trabalhado, de extrema simplicidade ou de extrema riqueza, é sempre perturbante. Para mim, o bom azulejo é uma grande Arte difícil”.

___________________________
MARTINS, Maria Manuela d’Oliveira – Conversa com Maria Keil. In Maria Keil. Azulejos. Lisboa: Museu Nacional do Azulejo, 1989, p.47 [catálogo de exposição].

____________________________________________________

Quoting Maria Keil “The tile for me is, above all, a covering material used in architecture. This gives it the label of utility, therefore, Minor Art, for many people. Essentially, the tile is a presence, a brightness. Smooth or rolled material, of extreme simplicity or extreme richness, it is always disturbing. For me, a good tile is a great difficult Art”. [free translation]

___________________________
MARTINS, Maria Manuela d’Oliveira – Conversa com Maria Keil. In Maria Keil. Azulejos. Lisboa: Museu Nacional do Azulejo, 1989, p.47 [exhibition catalogue].

O QUE É O AZULEJO?

[​ ​—​ ​Please​ ​scroll​ ​down​ ​for​ ​English​ ​version​ ​—​ ​]

Resumo

Entre normas e “artisticidade”, passando por dimensões, métricas, suporte de mensagens, experiências estéticas, durabilidade, alterações, entre muitos outros aspectos, a conversa sobre o que é o azulejo prolongou-se por cerca de duas horas, muito participadas!

Adivinhando a dificuldade de resumir todos os interessantíssimos aspectos do debate, desta vez estivemos em directo e os vídeos da sessão continuam disponíveis no evento da nossa página do facebook.

Respondendo ao desafio final de João Manuel Mimoso, e a partir das múltiplas ideias em discussão, arriscamos a deixar aqui expressa uma definição possível, que é necessariamente ampla e inclusiva: azulejo é um material cerâmico que, independentemente da forma e do relevo, reveste e articula-se com a arquitectura. É, pois, um revestimento cerâmico num sentido abrangente e considerado num contexto histórico português de tradição de aplicação arquitectónica.

____________________________________________________

WHAT IS A TILE?


Session overview

Between guidelines and “artisticity”, through dimensions, metrics, messaging support, aesthetic experiences, durability, alterations, among many other things, the conversation about what is a tile lasted for about two hours, and was very participated!

Guessing the difficulty of summarizing all the interesting aspects of the debate, this time we were live and the videos of the session are still available in the event of our facebook page.

Responding to the final challenge of João Manuel Mimoso, and based on the multiple ideas under discussion, we risk leaving here a possible definition that is necessarily broad and inclusive: azulejo (tile) is a ceramic material that, regardless of the shape and of the relief, it covers and articulates with architecture. It is, therefore, a ceramic covering in a comprehensive sense and considered in a Portuguese historical context of tradition of architectural application.

O QUE É O AZULEJO? | WHAT IS A TILE?

 

 

 

 

 

 

 
Luís Pedro Silva
Arquitecto / Architect

[​ ​—​ ​Please​ ​scroll​ ​down​ ​for​ ​English​ ​version​ ​—​ ​]

Resultando de um aquecimento intenso da fina argila roubada ao solo, como uma rocha saída do ventre da Terra, a cerâmica ou o barro cozido é uma sólida herança do homem antigo. Da família daqueles produtos derivados do fogo conquistado aos Deuses por Prometeu, o azulejo carrega essa transcendência mágica da humanidade que pôde reformar a Terra para a tornar durável e estável, para já depois dos entes vivos…

O azulejo é uma afinidade do tamanho do corpo desse humano que o manipula, o transporta e aplica, à mão e com as mãos, e por isso sempre se afigura íntimo. Disponível e apreensível no seu módulo elementar, adveio célula da repetição e da composição de conjuntos maiores que condicionam espaços e abrigam o próprio corpo.

O azulejo é o acabamento, o refinamento, a superfície que reveste protegendo e tapa encobrindo. Anula o rude ou o grosseiro, ou preserva o organismo construído, abrigando o próprio abrigo. Vitrificado, é limpo e liso, polido e potencialmente reflector. Sem poros – e por isso – é afirmado contra a água no interior e no exterior das construções.

Com a repetição do módulo, o azulejo consubstancia a geometria e a matemática, à sua maneira. Com o vidrado predestina-se à figuração e à abstração. A linha, a textura, a côr e a tridimensionalidade reinventam-se no módulo e no sistema, no elemento e na estrutura, no timbre e no ritmo de fecundas composições.

O azulejo é já nosso, de tal modo persiste e se renova sob o idioma português e o serve, reinterpretando o modo de ser e de o ser, há 500 anos e por tantos improváveis lugares da Terra: Em modos e sentidos deste lugar celeste, persuadido e afeiçoado a uma maneira tão plural de sentir e organizar.

____________________________________________________

Resulting from an intense heating of the fine clay stolen from the ground, like a rock out of the Earth’s womb, pottery or baked clay is a solid heritage of ancient man. From the family of those products derived from the fire conquered to the Gods by Prometheus, the tile bears this magical transcendence of mankind that could reform the Earth to make it durable and stable, for now, after the living beings…

The tile is an affinity of the size of the body of this human who manipulates, transports and applies it by hand and with his hands, and so it always seems intimate. Available and apprehensible in its elementary module, it became a cell of repetition and composition of larger sets that condition spaces and harbour the body itself.

The tile is the finish, the refinement, the surface covering that protects and conceals. It cancels the rude or the coarse, or preserves the built organism, sheltering its own shelter. Vitrified, it is clean and smooth, polished and potentially reflective. With no pores – is therefore – asserted against water inside and outside the buildings.

With the module repetition, the tile consubstantiates geometry and mathematics in its own way. With the glaze it is predestined to figuration and abstraction. The line, texture, colour and three-dimensionality reinvent themselves in the module and in the system, in the element and in the structure, in the tone and in the rhythm of the fertile compositions.

The tile is already ours, as it persists and is renewed under the Portuguese language and serves it, reinterpreting the way of being and of being, for 500 years and for so many improbable places on Earth: In ways and senses of this heavenly place, persuaded and fond of such a plural way of feeling and organizing.

O QUE É O AZULEJO? | WHAT IS A TILE?

 

 

 

 
Maria Ana Vasco Costa
Artista-Ceramista / Ceramist

[​ ​—​ ​Please​ ​scroll​ ​down​ ​for​ ​English​ ​version​ ​—​ ​]

Na sua descrição mais simples o azulejo é uma peça de cerâmica de pouca espessura geralmente, quadrada, em que uma das faces é vidrada.

Para mim o azulejo é um instrumento através do qual exprimo ideias de padrão e textura à escala da arquitectura.

Interessam-me as possibilidades que o corpo cerâmico acabado proporciona – nomeadamente no que diz respeito a cor, profundidade, temperatura, variação e som.

Sabemos que o azulejo não é apenas um revestimento duradouro, isolante e refletor – pela sua técnica de manufactura permite explorar inúmeras variações plásticas e visuais através no binómio forma/cor.

O azulejo é um revestimento altamente resistente e de fácil manutenção, revelando simultaneamente nos edifícios uma presença singular – é esta característica que motiva a minha investigação em torno deste material.

Ao introduzir a tridimensionalidade e a variação da forma (alternativa ao quadrado), o azulejo gera diferentes padrões, fazendo refletir a luz e produzindo sombras na superfície. Desencadeiam-se assim novos elementos para a composição, em que a conjugação do desenho da peça, cor e padrão traduz infinitas possibilidades plásticas.

____________________________________________________

In its simplest description the azulejo (tile) is a piece of ceramic of little thickness, usually square, in which one of the faces is glazed.

For me the tile is an instrument through which I express ideas of pattern and texture at the scale of architecture.

I am interested in the possibilities that the finished ceramic body provides – namely with regard to colour, depth, temperature, variation and sound.

We know that the tile is not only a durable, insulating and reflective covering – by its manufacturing technique it allows to explore numerous of plastic and visual variations through the binomial form / colour.

The tile is a highly resistant covering and of easy maintenance, simultaneously revealing in the buildings a unique presence – it is this characteristic that motivates my investigation around this material.

By introducing three-dimensionality and shape variation (alternative to the square), the tile generates different patterns, reflecting light and producing shadows on the surface. It thus trigger new elements to the composition, in which the conjugation of the design of the piece, colour and pattern translates to infinite plastic possibilities.

O QUE É O AZULEJO? | WHAT IS A TILE?

 

 

 

 

Vítor Serrão
Az – RIA (ARTIS – IHA/FLUL)
Historiador de Arte / Art Historian

[​ ​—​ ​Please​ ​scroll​ ​down​ ​for​ ​English​ ​version​ ​—​ ​]

A arte do Azulejo constitui um dos traços de maior originalidade do património português. Trata-se de uma modalidade que, em termos técnicos, formais e estilísticos, se mostrou sempre apta a superar a constância e repetitividade dos seus módulos, transformando-os em linguagens compositivas eloquentes.

A razão porque o olhar contemporâneo valoriza o azulejo como um dos valores mais expressivos de toda a arte portuguesa radica na constatação desse seu poder admirável de se colar aos espaços, sacros ou civis, públicos ou privados, militares ou áulicos, em linguagens mais eruditas ou ingénuas.

Os revestimentos cerâmicos, dos mais singelos aos mais elaborados, atestam sempre a força e pujança decorativa de uma arte que, independentemente da época histórica ou do estilo dominante, se mostrou sempre capaz de conferir ao espaço da arquitectura um verdadeiro carácter vernacular, uma linguagem forte, que comunga com as outras artes de decoração e se sabe exprimir em português.

A arte portuguesa foi, pelo menos desde o século XV, a principal produtora e utilizadora desse poderoso gosto ornamental, que se espalhou com eficiência pelo espaço europeu e pelos domínios ultramarinos com uma intensidade que não encontra paralelo em nenhum outro país. Torna-se especialmente notável a sempre imaginosa expressão criativa que levou os artistas do azulejo a aplicá-lo numa espécie de membrana sensível dos espaços arquitectónicos, com soluções onde a fantasia e a criatividade, as relações com a luz e com o ‘espírito dos lugares’ articulam os materiais de modo que atinge, por vezes, escalas absolutamente magistrais.

A História da Arte tem sabido adequar as suas metodologias de estudo e referenciação às difíceis e complexas subtilezas de uma arte que não pode mais ser resumida à biografia de alguns artistas ou à elencagem de ciclos estilísticos, mas que precisa de ser investigada, estudada e fruída numa dimensão interdisciplinar numa visão global, tantas são os questionamentos que a sua força criadora nos coloca, hoje e sempre.

____________________________________________________

The art of Azulejo is one of the most original features of the Portuguese heritage. It is a modality that, in technical, formal and stylistic terms, has always been able to overcome the constancy and repetitiveness of its modules, transforming them into eloquent compositional languages.

The reason that the contemporary view values the tile as one of the most expressive values of all Portuguese art lies in the discovery of its admirable power to cling to spaces, sacred or civil, public or private, military or aulic, in more erudite or naive languages.

The ceramic coverings, from the most simple to the most elaborate, always attest to the decorative strength and vigor of the tilework. This art, has always been able to confer to the architectural space a true vernacular character, a strong language, who communicates with the other decorative arts and knows how to express itself in Portuguese.

Portuguese art has been, at least since the 15th century, the main producer and user of this powerful ornamental taste, which has spread efficiently throughout Europe and overseas with an intensity that is unparalleled in any other country.

The imaginative creative expression that has led tile artists to apply it to a kind of sensitive membrane of architectural spaces is especially noteworthy, with solutions where fantasy and creativity, relationships with light and with the ‘spirit of places’ articulate the materials in a way that sometimes reaches absolutely magisterial scales.

Due to the many questions that its creative force puts before us (today and always), Art History has adapted its methodologies of study to the difficult and complex subtleties of an art that can no longer be summed up to the biography of some artists or to the stylistic cycles, but that needs to be investigated, studied and enjoyed in an interdisciplinary dimension within a global vision.

O QUE É O AZULEJO? | WHAT IS A TILE?

 

 

 

 

 

 

 

 


Suzana Barros
Ceramista / Ceramist

[​ ​—​ ​Please​ ​scroll​ ​down​ ​for​ ​English​ ​version​ ​—​ ​]

O azulejo é pele. É o suporte de ideais, sonhos, pensamento, gestos, jogos de formas, desenho e técnicas.
É repetição e multiplicação caleidoscópica. É geometria e ergonomia.
Tem por base a terra.
A água volátil transporta os óxidos, as sílicas, os sais, todos os pós que o fogo transformará em registos únicos, quase eternos.
Espelham os reflexos das cidades. Desenham arquitecturas em jogos de ampliação de espaços a azul.
Casam com gravuras de época. Fingem mármores e enganam os olhares.
Expandem-se além fronteiras, absorvem influências de viagens percorridas.
São olhares sobre outras culturas, interpretados…
É orgulho quase imperceptível. Nacionalidade.

____________________________________________________

The azulejo (tile) is skin. It is the support of ideals, dreams, thoughts, gestures, games of forms, drawings and techniques.
It is repetition and a kaleidoscopic multiplication. It’s geometry and ergonomics.
It’s based is the land.
Volatile water carries the oxides, silicas, salts, all powders that the fire will transform into unique, almost eternal records.
They mirror the reflections of cities. They devise architectures in games of magnification of spaces in blue.
They marry with period engravings. They fake marbles and deceive glances.
They expand beyond borders, absorb influences of journeys traveled.
They are looks on other cultures, interpreted …
It is an almost imperceptible pride. Nationality.

O QUE É O AZULEJO? | WHAT IS A TILE?

 

 

 

 

 

 

 

Pedro Sá Costa
Arquitecto / Architect

[​ ​—​ ​Please​ ​scroll​ ​down​ ​for​ ​English​ ​version​ ​—​ ​]

De origem árabe, o azulejo é peça incontornável do património cultural e arquitetónico Português desde há vários séculos. A sua utilização como elemento decorativo desde cedo seduziu a nobreza e o clero, permitindo a criação de painéis decorativos que adicionavam brilho e ostentação a palácios, conventos, igrejas e solares com motivos decorativos que ecoavam temáticas variadas, desde feitos históricos a cenas religiosas ou do quotidiano. A arte da azulejaria, que vem a ter um grande desenvolvimento desde os descobrimentos, permite que o azulejo se apresente como um elemento versátil que se adapta às necessidades e acompanha os estilos das diferentes épocas, resistindo ao passar do tempo. A partir do século XIX a sua visibilidade ganha novo protagonismo com o fabrico em série e a sua utilização corrente em edifícios, permitindo não só a integração da pintura na arquitetura como o uso da cor de forma permanente, criando uma capa protetora de elementos vidrados que adia a manutenção das fachadas.

Na década de 50 do século passado a utilização do azulejo na arquitetura envereda por parâmetros funcionalistas internacionais que espelham os ideais modernistas, criando-se então uma cooperação estreita entre arquitetos e vários artistas plásticos. A obra de Maria Keil, encomendada propositadamente para várias estações do Metropolitano de Lisboa, converte-se num caso paradigmático de trazer a arte para uma infraestrutura pesada que, regra geral, dispensa a beleza em prol da funcionalidade. Outros artistas se seguem, como Vieira da Silva, Júlio Pomar, Manuel Cargaleiro, Eduardo Nery e Júlio Resende, a fazer a ponte entre a arte e arquitetura, com a criação de painéis cerâmicos por encomenda não só para o Metropolitano de Lisboa, mas para vários edifícios e espaços públicos um pouco por todo o país. Décadas mais tarde a utilização do azulejo na arquitetura ganha um novo impulso com as várias obras de referência construídas para a Expo 98, nomeadamente na utilização de grandes painéis monocromáticos de azulejos artesanais de cores fortes no Pavilhão de Portugal (Álvaro Siza Vieira) ou na extraordinária recriação de enormes imagens “pixeladas” de animais marinhos através da utilização de peças cerâmicas aparentemente desconexas no Oceanário de Lisboa (Ivan Chermayeff). Como tem sido possível observar, esta reinvenção tem sido uma constante, com o azulejo a tomar novas formas para criar efeitos surpreendentes. O impressionante padrão hexagonal tridimensional aplicado como escama no Terminal de Cruzeiros de Leixões (Luís Pedro Silva) e repetido quase um milhão de vezes leva-nos instantaneamente a querer tocar esta pele que cobre o edifício e que reflete a luz sempre de forma diferente ao longo do dia. Igual efeito é conseguido com as peças bidimensionais desenhadas propositadamente para revestir a ondulante fachada do MAAT em Lisboa (Amanda Levete), criando um irresistível jogo de reflexos entre o edifício e o rio Tejo. Com o avanço da tecnologia imagina-se que o potencial de evolução deste material se encontre ainda longe de estar esgotado.

É esta a matriz da arquitetura portuguesa contemporânea, que combina modernidade com um regionalismo muito próprio, e é aqui onde ainda hoje buscamos inspiração enquanto arquitetos. O desafio será agora continuar a saber reinventar o azulejo, tal como temos sabido fazer nestes últimos séculos, acrescentando beleza aos nossos edifícios e cidades.

____________________________________________________

Of Arab origin, the azulejo (tile) is part of the Portuguese cultural and architectural heritage for several centuries. Its use as a decorative element soon seduced the nobility and clergy, allowing the creation of decorative panels that added brightness and ostentation to palaces, convents, churches and manor houses. Its decorative motifs echoed varied themes, from historical themes to religious scenes or from the everyday life. The art of tile, which has been in developing since the Portuguese discoveries, proved to be a versatile element that adapts to the styles of different eras, resisting the passage of time. From the 19th century, its visibility gained new prominence with its current use in buildings. Thus, it allows not only the integration of painting into architecture but also the permanently use of colour, creating a protective layer of glazed elements that postpones the maintenance of the façades.

In the 1950’s, the use of tile in architecture was based on international functionalist parameters that mirrored the modernist ideals, creating close cooperation between architects and various artists. The work of Maria Keil, purposely commissioned for several stations in the Lisbon Underground, is a paradigmatic case of bringing art to a heavy infrastructure that, as a rule, dispenses with beauty for the sake of functionality. Other artists follow, such as Vieira da Silva, Júlio Pomar, Manuel Cargaleiro, Eduardo Nery and Júlio Resende, that bridge the gap between art and architecture, with the creation of custom-made ceramic panels not only for the Lisbon Underground but for several buildings and public spaces all over the country. Decades later the use of the tile in the architecture gains a new impulse with several works of reference built for Expo’98, namely in the use of large artisan monochrome tile panels of strong colors in the Pavilion of Portugal (Álvaro Siza Vieira) or in the extraordinary recreation of enormous “pixelated” images of marine animals through the use of seemingly unconnected ceramic pieces in the Oceanário de Lisboa (Lisbon Aquarium) (Ivan Chermayeff). As has been observed, this reinvention has been a constant, with the tile taking new forms to create amazing effects. The impressive three-dimensional hexagonal pattern applied as a scale at the Leixões Cruise Terminal (Luís Pedro Silva) and repeated almost a million times makes us instantly to want to touch this skin that covers the building and that reflects the light always differently throughout of the day. The same effect is achieved with the two-dimensional pieces purposely designed to cover the undulating façade of the MAAT in Lisbon (Amanda Levete), creating an irresistible game of reflections between the building and the river Tagus. With the advancement of technology one can imagine that the potential for evolution of this material is still far from exhausted.

This is the matrix of contemporary Portuguese architecture, which combines modernity with a very own regionalism, and it is here where we still seek inspiration as architects. The challenge will now be to continue to know how to reinvent the tile, as we have been doing in these last centuries, adding beauty to our buildings and cities.