
Vítor Serrão
Az – RIA (ARTIS – IHA/FLUL)
Historiador de Arte / Art Historian
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A arte do Azulejo constitui um dos traços de maior originalidade do património português. Trata-se de uma modalidade que, em termos técnicos, formais e estilísticos, se mostrou sempre apta a superar a constância e repetitividade dos seus módulos, transformando-os em linguagens compositivas eloquentes.
A razão porque o olhar contemporâneo valoriza o azulejo como um dos valores mais expressivos de toda a arte portuguesa radica na constatação desse seu poder admirável de se colar aos espaços, sacros ou civis, públicos ou privados, militares ou áulicos, em linguagens mais eruditas ou ingénuas.
Os revestimentos cerâmicos, dos mais singelos aos mais elaborados, atestam sempre a força e pujança decorativa de uma arte que, independentemente da época histórica ou do estilo dominante, se mostrou sempre capaz de conferir ao espaço da arquitectura um verdadeiro carácter vernacular, uma linguagem forte, que comunga com as outras artes de decoração e se sabe exprimir em português.
A arte portuguesa foi, pelo menos desde o século XV, a principal produtora e utilizadora desse poderoso gosto ornamental, que se espalhou com eficiência pelo espaço europeu e pelos domínios ultramarinos com uma intensidade que não encontra paralelo em nenhum outro país. Torna-se especialmente notável a sempre imaginosa expressão criativa que levou os artistas do azulejo a aplicá-lo numa espécie de membrana sensível dos espaços arquitectónicos, com soluções onde a fantasia e a criatividade, as relações com a luz e com o ‘espírito dos lugares’ articulam os materiais de modo que atinge, por vezes, escalas absolutamente magistrais.
A História da Arte tem sabido adequar as suas metodologias de estudo e referenciação às difíceis e complexas subtilezas de uma arte que não pode mais ser resumida à biografia de alguns artistas ou à elencagem de ciclos estilísticos, mas que precisa de ser investigada, estudada e fruída numa dimensão interdisciplinar numa visão global, tantas são os questionamentos que a sua força criadora nos coloca, hoje e sempre.
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The art of Azulejo is one of the most original features of the Portuguese heritage. It is a modality that, in technical, formal and stylistic terms, has always been able to overcome the constancy and repetitiveness of its modules, transforming them into eloquent compositional languages.
The reason that the contemporary view values the tile as one of the most expressive values of all Portuguese art lies in the discovery of its admirable power to cling to spaces, sacred or civil, public or private, military or aulic, in more erudite or naive languages.
The ceramic coverings, from the most simple to the most elaborate, always attest to the decorative strength and vigor of the tilework. This art, has always been able to confer to the architectural space a true vernacular character, a strong language, who communicates with the other decorative arts and knows how to express itself in Portuguese.
Portuguese art has been, at least since the 15th century, the main producer and user of this powerful ornamental taste, which has spread efficiently throughout Europe and overseas with an intensity that is unparalleled in any other country.
The imaginative creative expression that has led tile artists to apply it to a kind of sensitive membrane of architectural spaces is especially noteworthy, with solutions where fantasy and creativity, relationships with light and with the ‘spirit of places’ articulate the materials in a way that sometimes reaches absolutely magisterial scales.
Due to the many questions that its creative force puts before us (today and always), Art History has adapted its methodologies of study to the difficult and complex subtleties of an art that can no longer be summed up to the biography of some artists or to the stylistic cycles, but that needs to be investigated, studied and enjoyed in an interdisciplinary dimension within a global vision.